Dia histórico para a Igreja do pós-concílio
"A excomunhão dos bispos sagrados por S.E.R. Dom Marcel Lefebvre no dia 30 de junho de 1988, que tinha sido declarada pela Sagrada Congregação para os Bispos por um decreto do dia 1 de julho de 1988 e que nós sempre contestamos, foi retirada por outro decreto da mesma Sagrada Congregação no dia 21 de janeiro de 2009, por mandato do papa Bento XVI.
Queremos expressamos [sic] nossa gratidão filial ao Santo Padre por este ato que, além da mesma Fraternidade, será um bem para toda a Igreja. Nossa Fraternidade deseja poder ajudar sempre mais o papa a por remédio nesta crise sem precedentes que comove atualmente o mundo católico, e que o papa João Paulo II tinha designado como um estado de "apostasia silenciosa".
Além do nosso reconhecimento ao Santo Padre, e a todos aqueles que ajudaram a chegar a este ato corajoso, nós estamos contentes de que o decreto do dia 21 preveja como necessário "conversações" com a Santa Sede, conversações que permitirão à Fraternidade Sacerdotal São Pio X de expor suas razões doutrinais de fundo que ela considerada como a origem das dificuldades atuais da Igreja.
Neste novo clima, nós temos a firma esperança de chegar logo a um reconhecimento dos direitos da Tradição católica.
Menzinger, 24 de janeiro de 2009.
Bernard Fellay"
Uma carta de Fellay aos fiés em referência ao fato encontra-se aqui.
Excomunhão contra lefebvristas será levantada
Altar pos-conciliar e homilia de Natal de Bento XVI
João XXIII e seus escritos
Gramsci converte-se ao catolicismo
Centenário Plínio Corrêa de Oliveira
A busca do fundamento ou a deificação do nada?
Fora alguns nostálgicos, os mitos do século XIX e início do XX estão sendo lentamente abandonados. O progresso que caminha incansável rumo ao reino imanente, o fim da história como uma especulação historicista, a ciência libertadora e emancipatória, todos esses mitos caíram um a um, juntamente dos corpos carbonizados por revoluções e guerras incansáveis, sempre em nome do avançar da história. Sobre os escombros da débâcle dos mitos modernos o que vêm à tona é o nada e a solidão pós-moderna. De um otimismo exacerbado na ciência e suas benesses, entramos em um tempo no qual o que prevalece é o pessimismo e o desnorteamento frente a qualquer discurso que vise construir e admitir algum tipo de sentido nesse turbilhão marcado pela ansiedade existencial. Sobre os escombros de uma modernidade orgulhosa e soberba o que emerge é um homem desorientado à procura. De quê? De si mesmo. Em meio a tanta descrença e desesperança o homem quer saber quem é ele, qual o sentido da vida, o porquê da existência.
De fato, a grande aventura humana sempre foi marcada pela busca de si mesma, pelo o que me aproxima do outro, pelo que me faz mais humano. Isso não é um privilégio do tempo presente. Tal busca constitui o âmago do ser. Contudo, no mundo contemporâneo, marcado por fundamentalismos e relativismos, várias são as tentativas de banir a própria possibilidade de se formular as perguntas que nos levam a vislumbrar respostas sobre “quem sou eu”. Impedidos, perdemos o que existe de mais humano em nós, reificando-nos. Tais tentativas, veladas pelo manto de uma utilização duvidosa do conceito de “tolerância” e “multiculturalismo”, diminuem o homem em seu aspecto mais peculiar, daquele ser que pergunta, que procura, que deseja respostas, que visa o Todo. Presenciamos assim, parafraseando Horkheimer, o “eclipse da razão”.
Por outro lado, a razão pode ser eclipsada, mas não totalmente proscrita, pois se assim fizesse seria a idiotização do homem e seu posterior aniquilamento espiritual. O lançar-se na busca da justiça, da verdade, da bondade, da liberdade e da felicidade faz parte dos mais íntimos interstícios do homem e marca indelevelmente o seu caminhar. Muitos são os filósofos, teólogos e estudiosos que se envolveram na busca e na pesquisa desse fundamento do ser do homem por milhares de anos.
Podemos afirmar que a partir dessas exigências elementares o homem torna-se homem, humaniza-se, encontra com o semelhante, interage, cria a arte, a ciência, a filosofia, a religião e as civilizações. Desse impulso para viver em busca de respostas às exigências primordiais, dessa sede que nunca se farta de procurar por novos mananciais de água fresca do Todo é que nasce a história humana, tempo que escorre pelas nossas mãos e se derrama num grito de “por que”.
O filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983) nos fala que a busca de descobrir os significados das coisas, do sentido, constituiu e permeou a vida simbólica do homem, levando-o a se defrontar irremediavelmente com o problema de Deus. Qualquer que seja a resposta dada pelo homem a esse problema, – seja o ateísmo, o teísmo ou o agnosticismo –, este homem não tem a consciência de que a sua resposta é dada a uma questão anterior, isto é, a “um problema que subjaz às suas crenças”. Dessa forma, o ponto que está em questão é o enfrentamento inexorável do homem, indistintamente, com o que denomina de dimensão última do real.
Zubiri, deseja chamar atenção para o fato de que tal dimensão é algo estrutural da realidade humana. Por isso, o próprio ateísmo está inserido nessa mesma dinâmica de resposta do homem à sua própria condição. É uma resposta a esse enfrentamento com a dimensão última do real. Não uma resposta teológica, mas indubitavelmente teologal: “o problema de Deus, enquanto problema, não é um problema qualquer, arbitrariamente colocado pela curiosidade humana, mas é a realidade humana mesma em sua problematicidade constitutiva”.
A partir da reflexão do grande filósofo, parece que o desafio é fazermos o retorno a nós mesmos. Voltarmos para a nossa constituição mais íntima, deixar brotar nossos desejos mais profundos de amor, liberdade, felicidade e verdade. Voltar-nos e religarmo-nos ao fundamento do ser, pois corremos o sério risco, se não encararmos com seriedade essa tarefa da alma, de entronizar o nada deificado e tornarmo-nos néscios adoradores do vazio.
Entre a busca e o barateamento da vida interior
No dia 18 de outubro de 2008 realizou-se no auditório da reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais o debate “Fé e conhecimento: a perspectiva do cientista, do poeta e do monge”. (a gravação completa encontra-se no site www.fafich.ufmg.br/~laps) O público no local foi em torno de 400 pessoas, além das 500 que acompanharam ao vivo pela internet, entre eles, muitos estudantes, professores e interessados pelo tema. O sucesso do debate demonstra que quando existe algo a ser falado, quando esse algo corresponde à interioridade do ser humano, quando o insere no jogo de ouvir, pensar, situar-se e implicar-se no que é dito, é possível agrupar um bom número de pessoas para refletirem juntas.
Ao perguntar-se se é possível articular fé e conhecimento, se são duas vias paralelas e que não se cruzam e se a fé é simplesmente acreditar cegamente em algo, as pessoas se sentem incitadas a pensarem suas próprias convicções e condutas. Ao perguntar-se sobre as razões de afirmações mais basais, de nossas vivências e experiências, lançamo-nos num desafio instigante de pensarmos nós próprios frente a um mundo que se transforma numa velocidade jamais vista. Em meio a tantas mudanças existe algo em mim que posso chamar de inato? Existe algo no homem que o constitui como ser?
Para a poetisa Adélia Prado, que esteve conosco nesse encontro e que nos possibilitou vislumbrar a relação entre fé e conhecimento a partir do fazer poético, a resposta é sim, e o sentimento moral é uma dessas coisas. Segundo a poetisa, “o mundo já nos é dado com suas órbitas, leis, sentimentos do bem e do mal”. A sensibilidade ética, para Adélia Prado, “já nasce conosco e ela nos persegue feito um aguilhão. É o instinto da alma, o instinto religioso que é a tendência que a alma, o espírito humano, tem de procurar aquilo que justifique a existência, o absurdo do fenômeno da nossa existência e a do mundo, alguma coisa que justifique a existência num centro de significação e sentido: o que? Por quê? O que sou? De onde vim? Para onde vou? Por que sofremos?”
Transitando do olhar poético ao pensamento místico cristão, a poetisa mineira afirma que “a alma humana quer encontrar algo que a descanse; um descanso da nossa humanidade, da nossa finitude que fica permanentemente querendo uma coisa infinita.” E assevera: “Ninguém é insensível a essas exigências”. Ninguém é insensível às exigências primeiras do coração humano. As exigências primárias de felicidade, liberdade, bem e verdade. Para a poetisa, é da “da experiência de nascer, sofrer, morrer, alegrar-se é que nascem religiões, ciência, filosofia e arte. Sem esses aguilhões nós estaríamos ainda no mesmo lugar. É isso que provoca e é a pulsão daquilo que nós chamamos de civilização e humanização [...] É a religião e a arte [...] por que escapam da cadeia da lógica [...] propiciam ao homem a chance de viver a vida simbólica”. A crítica de Adélia Prado vem nesse sentido: atualmente vivemos um vazio simbólico, que leva o homem a essa secura espiritual tão marcante nos tempos atuais.
Na verdade, poderíamos afirmar, que temos sim uma vida simbólica na chamada pós-modernidade, hiper-modernidade ou super-modernidade, como queiram chamar esses tempos os estudiosos. Contudo, uma parcela dessa vida simbólica que qualquer olhar mais atento flagra gira em torno dos shoppings, templos de consumo aonde o espaço público é privado e restrito e aonde o grande ato sacrificial se dá nas faturas por serem pagas. Tal vida simbólica dá-se na relação estabelecida pelo próprio consumidor-fiel e seus novos totens, adquiridos quase com confiança religiosa em sua tarefa libertadora e salvífica. O ato da compra (ou do débito) é convertido em prática sacramental, e suas conseqüências são sinais na alma de um alento momentâneo e quase um êxtase orgiástico, dependendo do totem adquirido. O produto não é um simples produto. Além de suas funções primárias ele nos possibilita um caminho para o céu: invejado e desejado pelo outro, o totem e sua utilização tornam-se caminhos de salvação que visam nos fazer crer que somos únicos e insubstituíveis aos olhos do Deus-Mercado. À religião do consumo, uma das marcas da vida simbólica atual, não somos imunes. Ajoelhamos permanentemente para os nossos totens, dignos de adoração e veneração, mas assinalados com seus prazos de validade em decorrência da mão-invisível do Deus –Mercado, que deve proporcionar novos e mais eficazes totens para encher nossos templos e nos fornecer melhores caminhos de salvação.
Sobre o verdadeiro pecado

Ser si mesmo

Julián Marías ( Antropologia Metafísica)
