"Foi excomungado, e daí?"

É de se espantar a forma como a mídia em geral tratou a questão do aborto de gêmeos da criança em Pernambuco e da posição de D. José. Da mídia, passamos para aqueles leitores, então, que depois de lido as matérias permeadas de tom sensacionalista, que passam a repetir igualzinho, tudo, o que o jornal 'x' ou 'y' falou. A falta de noção sobre o que significa uma excomunhão, ainda mais latae sententiae, do Código de Direito Canônico, da dinâmica que a Igreja se insere, "uma luz do eterno", como nos diz Voegelin, inserida na realidade contingente, é assustadora. Ok, ok. É demais o que peço. Entendo que nem todos sabem disso ou daquilo. Ainda mais da Igreja, que tem uma história milenar, e demandaria uma vida inteira para tentarmos apreender pelo menos alguns de seus aspectos. Mas, mesmo assim, todo mundo quer falar. Todo mundo tem uma opinião pra dar sobre a posição da Igreja nisso ou naquilo. Se a Igreja não tem força alguma atualmente, se perde seus fiéis devido seu discurso "fechado" e "conservador", se sua fala não tem plausibilidade nenhuma no mundo atual, como falam os seus detratores, por que então uma excomunhão, uma simples excomunhão faz tanto barulho assim? Se ninguém está nem aí para a Igreja e o que ela fala e desfala, por qual motivo uma punição a quem cometeu um aborto, que é automática no caso, não "distribuída" pelo bispo, leva tanta gente a se levantar contra esse bispo e a Igreja. Até o presidente Lula da Silva vem dar pitaco numa questão que é estritamente religiosa!? Será que não se está misturando as bolas? Faço as minhas as palavras de Heitor Cony hoje na Folha: "Foi excomungado, e daí?"
Aqui vai um depoimento que talvez nunca será publicado pela imprensa. Ainda bem que existe a blogosfera!

Cardeal Martini na mira da FSSPX

O cardeal Carlo Maria Martini está na mira dos lefevrianos. Para eles, Martini é tão subversivo quanto Hans Küng. No editorial de seu prório site, os lefebvrianos dizem-se preocupados, porque enquanto Küng é marginal à Igreja, Martini está dentro, podendo, assim, oferecer maiores perigos. O que trouxe essa reação dos lefebvrianos é o livro do cardeal, Conversazioni notturne a Gerusalemme, no qual Martini expõe de forma clara o que pensa sobre o mundo e o papel da Igreja. Reportagem no La Stampa.

La Stampa e La Repubblica dá notícia sobre excomunhões no Brasil

Na Itália, no La Stampa e no La Repubblica, ressoa a excomunhão daqueles envolvidos no aborto da criança de 9 anos no nordeste.

Blog A cinza do purgatório

Amigos, raros e importantíssimos, que passam por aqui. Como é de notar-se, esse blog é exclusivamente, ou quase, um blog sobre questões que levanto nessa minha vida acadêmica que tem como objeto a Igreja Católica Apostólica Romana. Coleciono aqui notícias, reflexões de textos publicados também em jornal impresso, referências de alguns livros sobre o assunto, notícias do mundo sobre a Igreja, etc. Já deu pra notar que minha obsessão teórica é o Concílio Vaticano II. Já até conversei uma vez com Andrea e Rodolfo sobre os motivos de um blog, pra quê escrever algo para deixar andando por aí no mundo virtual. Pensei até acabar de vez com essa história. Decidi continuar, e sim, acredito que alguns temas aqui tratados não estão disponíveis para a "massa", pelo menos a reflexão que se constrói sobre eles. Porém, com o passar do tempo (pois tinha um outro blog que "matei", depois veio esse), fui ficando meio cansado também só dessa linguagem daqui do perfasetpernefas. Desejei e concretizei a idéia de um outro blog, mais livre, que pudesse mostrar também um pouco de mim, que não é só esse daqui, que não se resume apenas em informação, notícias e reflexões históricas e historiográficas sobre a Igreja. Dessa forma, comecei anteontem um novo blog (A cinza do purgatório), sem compromisso com nada, apenas de me divertir mais um pouco, de forma mais descompromissada. Mas, se quiserem continuar a ler reflexões teóricas e afins sobre a Igreja Católica é aqui mesmo. Continuo firme no que propus.

Blair: contra o "laicismo agressivo"

Tony Blair, o último primeiro-ministro da Inglaterra faz coro com Sarkozy: para ele o "laicismo agressivo" pode acabar marginalizando o cristianismo no país. Afirma: "penso que as pessoas deveriam estar orgulhosas de sua fé cristã e poder expressá-la como desejam". A matéria sobre as palavras de Blair saíram na The Church of England News Paper. Comentários em espanhol podem ser lidos aqui e em inglês aqui.

Pio XII, o nazismo e o comunismo

O Vaticano divulga documentos da época de Pio XII, especificamente 1943, no qual o papa Pacelli ordena que mosteiros dêem cobertura judeus, de acordo com a Radio Vaticana. Não é novidade que Pio XII é visto por muitos (principalmente pela visão deturpada de John Cornwell, que fez um deserviço à história com sua obra O papa de Hitler) como um antissemita e que não teria agido mais radicalmente na defesa do povo judeu. O que chama atenção é que os mesmo que querem o papa como um antissemita batem palmas para o fato de que o Concílio Vaticano II não deu uma palavra se quer sobre os massacres que ocorriam nos países comunistas. Seria melhor o silêncio para evitar mais perseguição. Aí está uma das incongruências históricas que ainda não se resolveram: a benevolência ilusória frente ao comunismo e a dureza frente ao nazismo. Duas pragas do século XX.

Mais um

A imprensa não para de achar lefebvristas/lefebvrianos (penso em mudar para o segundo conceito) nazi-fascistas ou só mesmo fascistas por todos os lugares. Mais um na Itália. É Giulio Tam, que se denomina como "jesuíta itinerante", mas que agora encontra-se em Bergamo. Na mesma cidade sucedeu-se um cortejo do partido de direita Forza Nuova. E lá estava Tam. Segundo o jornal, fazia, como pode ser visto na foto, o sinal fascista. Sem exageros, né? Será que ele não estava apenas dando um tchauzinho ("ciaozinho") pro povo?

Anuário Pontifício 2009

Segundo o Anuário Pontifício 2009, que registra o número de bispos, sacerdotes, diáconos e fiéis, entre outras informações, aumentou o número de católicos no mundo. De acordo com o anuário, a população católica do mundo chegou nesses dois últimos anos a 17,3 % da população mundial, com crescimento de 1,4% anual. De 1 bilhão e 131 milhões em 2007 chegou-se a 1 bilhão e 141 milhões de católicos. O crescimento foi maior na África, Oceania e Ásia.

O turbilhão lefebvrista

O levantamento das excomunhões dos bispos sagrados por Marcel Lefebvre e Antônio de Castro Mayer em 1988 trouxe para os meios católicos inúmeras dúvidas e questões. Muita gritaria ouviu-se por todos os cantos do mundo, principalmente quando venho à tona que um daqueles bispos, o britânico Richard Willianson, é, como se diz no jargão histórico, um negacionista, ou seja, nega que teria havido a morte de 6 milhões de judeus na Segunda Grande Guerra. A predisposição de Bento XVI em levantar unilateralmente as excomunhões pode ser considerado como um ato de benevolência do papa, além de especialmente apropriado para que a Igreja recobre a sua unidade e acabe de vez com o cisma do século XX. Contudo, a gritaria geral, principalmente nos círculos progressistas, pautou-se na idéia de que Bento XVI, como um papa da “restauração”, deseja com a atitude dar marcha-ré ao processo iniciado pelo Concílio Vaticano II e levar a Igreja à situação “pré-conciliar”. Como disse na coluna passada, a complexidade se impõe frente às reduções ideológicas. A intenção do Bento XVI é mais que clara e pode ser lida em seu discurso aos cardeais no Natal de 2005, primeiro ano de seu pontificado: deve-se privilegiar a hermenêutica contínua em vez da hermenêutica da ruptura do Vaticano II, que, segundo ele, é uma das culpadas pela crise que se instalou na Igreja depois do evento conciliar. Devemos relembrar alguns fatos: em 1976 Lefebvre é suspenso a divinis por não obedecer a ordem vinda da Santa Sé de que deveria dissolver a FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio X). Aumenta o tom de denuncia contra a “Igreja conciliar” e, em 1988, quando sagra quatro novos bispos da FSSPX sem mandato pontifício é excomungado junto com eles. O cisma está feito. E ainda não foi sanado.
O levantamento das excomunhões por Bento XVI não resolve o problema. Assim como o levantamento das excomunhões recíprocas entre Roma e Constantinopla por Paulo VI e Atenágoras não fez com que retornasse a unidade entre a Igreja Romana e as Igrejas Ortodoxas orientais. É preciso notar que o levantamento das excomunhões, em ambos os casos, deve ser interpretado como o primeiro passo para que o cisma seja suprimido. Em tempos de ecumenismo, como proposto pelo próprio Vaticano II em seu decreto Unitatis Redintegratio, um ato de concórdia como esse é sempre bem vindo. Entretanto, a mídia em geral espalha a notícia, com seu tom característico de sensacionalismo, como se a FSSPX tivesse já sido novamente inserida no seio da Igreja, o que não procede.
O agravante das incompreensões, de acordo com o vaticanista Sandro Magister, foi a ressonância da entrevista de um dos padres beneficiados pelo levantamento da excomunhão, Richard Willianson. A sua infeliz e alucinante posição negacionista repercutiu muito mal, como não poderia ser diferente. Tal entrevista, exibida pela televisão sueca em primeiro de novembro de 2008 foi difundida exatamente no mesmo dia em que o decreto era assinado pelo papa. Assim, a primeira notícia que circulou por sites e jornais por todo o mundo foi a de que o papa absolvia a excomunhão dos lefebvristas e acolhia na Igreja um bispo negacionista. Levantaram-se vozes de protestos por todo o mundo, inclusive com o Rabinato de Jerusalém cortando relações com o Vaticano. Os protestos só são atenuados em 28 de janeiro quando o papa intervém com dois esclarecimentos em sua audiência geral das quartas-feiras: primeiro, os lefebvristas devem reconhecer a autoridade do papa e do Concílio Vaticano II; segundo, devem reconhecer a verdade histórica da Shoah (massacre perpetrado contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial e que resultou na morte de 6 milhões de pessoas). As perguntas que Magister se coloca e logo lança algumas hipóteses são as seguintes: tudo isso era inevitável, uma vez que o papa havia decidido sobre o levantamento das excomunhões? Ou o desastre foi produzido por erros e omissões daqueles que deveriam colocar em andamento as decisões do papa? Para o vaticanista, os fatos apontam para a segunda hipótese, ou seja, o problema foi a Cúria. O decreto, como se sabe, tem a assinatura do cardeal Giovanni Battista Re, prefeito da Congregação para os Bispos. Porém, Re diz que não sabia da perspectiva negacionista de Willianson. Outro cardeal, responsável pelo diálogo com os lefebvristas e que se ocupa do caso desde 1988 como presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Darío Castrillón Hoyos, também diz que não sabia dessa face do bispo Willianson. Mas isso não era a obrigação dos dois cardeais? Num caso tão delicado como esse, os cardeais responsáveis pelo documento não sabiam de tão grave posicionamento do lefebvrista britânico? Um cardeal que surpreendentemente ficou fora das discussões, segundo Magister, foi Walter Kasper, chefe do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Surpreendente porque o documento de levantamento das excomunhões veio a publico durante a anual semana de oração pela unidade dos cristãos e há poucos dias antes da jornada mundial da memória da Shoah. Mais surpresa: no dia 17 de janeiro sucedeu-se a jornada para o diálogo entre católicos e judeus. Descompasso completo. Tudo teria se dado mais tranquilamente se tivesse havido um equilíbrio entre os eventos e passos compassados entre os escritórios responsáveis de colocar em andamento as disposições papais. Para Magister, a culpa de tanto desencontro teria sido dos escritórios da Cúria que receberam os comandos. Escritórios que se resumem na Secretaria de Estado, ponta da máquina curial com acesso direto ao papa. Afirma: “Que o papa Ratzinger tinha renunciado a reforma da Cúria todos já sabiam [...] teria desistido da idéia confiando a guia dos escritórios a um secretário de Estado dinâmico e de pulso, Bertone.” Contudo, o que Magister parece sugerir é que Tarcísio Bertone e a Secretaria de Estado foram os responsáveis por tamanho turbilhão. Parece que uma idéia de reforma da Cúria ganha força.

Simpósios sobre ciências das religiões, teologia, filosofia e literatura em BH

Vai acontecer entre os dias 5 e 7 de maio na PUC-Minas, em Belo Horizaonte, o III Simpósio Internacional de Teologia e Ciências das Religiões, com o tema "Consciência planetária e religião". As inscrições vão até 16 de março e podem ser feitas aqui.

no segundo semestre teremos também em BH, o V Simpósio Filosófico-Teológico entre os dias 9 e 11 de setembro de 2009, com o tema "Literatura - provocação para o pensar filosófico e teológico". Mais informações aqui.

"Esse obscuro objeto de desejo": o Vaticano II

Passei de novo os olhos no post passado e vi que em vez de falar de uma "supervalorização" do Vaticano II, como afirma Kurt Flasch, diria que é sim uma hipervalorização ... Emile Poulat, em seu une Église ébranlée: changement, conflit et continuité de Pie XII á Jean-Paul II, de 1980 trazia sua lúcida tese. No terceiro ponto do capítulo XIV, L'année des trois papes (1978), Poulat fala em "fin d'une tradition, persistance d'un modèle". Cita Congar lá pelas tantas: "Les termes du sicut acies ordinata (une armée disciplinée et organisée pour le combat) ou de societas perfecta *(société complète jouissant de tous les moyens de sa vie propre) sont ici parfaitement en place". Poulat confirma a tese do dominicano. Contrariamente do que se crê alguns tantos, diz o historiador, o Vaticano II não colocou em causa nem modificou substancialmente aquele modelo. Ele antes procedeu a reequilíbrios , confimando aquisições, podando galhos mortos...("Il a plutôt procédé à des rééquilibrages, entérinant des acquisitions, élaguant son bois mort [...]"). Já devo ter falado isso milhares de vez, mais aí vai, mais uma vez: a questão sobre continuidade e descontinuidade da Igreja com o Vaticano II pode também ser discutida apenas a partir do olhar histórico, sem necessidade de recorrer a elementos teológicos, que claro, enriquecem o esquema, mas possibilita também ser colocado em xeque exatamente por isso por aqueles que o hipervalorizam. Teologicamente deveria recorrer à comunidade primitiva, a primazia de Pedro, a tradição apostólica. Discutindo historicamente, como o faz Poulat, nota-se que as "aquisições" e "podas" que nos diz referem-se a toda história anterior ao evento conciliar que, por isso mesmo, possibilitou a sua realização. A hipervalorização, seja de esquerda ou de direita, decorre de um mito, aquele no qual, a partir de uma leitura fictícia e onírica dos eventos, "desejava" que fosse assim assado. Esse "obscuro objeto de desejo", para lembrar Buñuel e dar uma arejada ao texto, mistura as dimensões e já não se sabe mais o que é o evento, o que é a história do evento, o que o levou, o que veio dele e assim por diante. Falar do concílio é exercício de julgamento e de desejo. E aí parece que as duas ações têm uma relação promíscua. Tanto o desejar quanto o julgar mesclam-se com a idéia do "que foi". Inacessível pela sua natureza temporal. O que temos é a história efeitual como nos falaria Hans-Georg Gadamer. Analisando historicamente, a questão que emerge são os efeitos e não o evento. Nossa leitura do evento condiciona-se sim aos próprios efeitos que emanam como ondas por estes 50 anos. Sofremos os efeitos dos olhares, das compreensões, das interpretações, dos preconceitos que se acumularam por todos esses anos. E é também a partir dessa "massa efeitual" que se constrói mais elementos para compô-la. A hipervalorização é um de seus efeitos. Nem mais, nem menos.


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*Não concordo em parte com a afirmativa. Não vejo o societas perfecta imperando assim como quer dizer. A eclesiologia do Vaticano II, uma das maiores preocupações de Paulo VI, tentou um reequilíbrio entre a eclesiologia tridentina e do Vaticano I, marcada pelo dogma da infalibilidade, e aquela assinalada pela colegialidade (notem bem que aqui também há uma questão. O papa, na dita "semana negra" para o episcopado holandês, interviu nos trabalhos e "deu" a receita, a Nota Praevia, de como o texto deveria ser compreendido.

Vaticano II "supervalorizado"

O Vaticano II foi um momento "supervalorizado" para muitos católicos. É o que diz o filósofo e medievalista alemão Kurt Flasch ao analisar a conjuntura eclesial em artigo no Le monde, publicado no iHu.

Assim afirma: "É verdade, o Vaticano II trouxe algo novo no que se refere à liberdade religiosa e à exegese bíblica, mas sem nada tirar do primado do bispo de Roma, nem do primado da jurisdição do papa. Para o Colégio episcopal, o concílio realizou viradas de pouca importância, teológico-cosméticas em suma, sem verdadeiros efeitos sobre o direito canônico. Uma enorme propaganda unida a uma colocação em cena espetacular, fizeram aparecer o Vaticano II mais revolucionário de quanto não tenha sido na realidade, e a central romana luta há décadas contra esta percepção, que é antes uma autopersuasão."