Locuções adverbiais e advérbios latinos

Eis algumas locuções adverbiais e advérbios latinos que valem a pena serem postados. Fazem parte da Gramática Latina (excelente, por sinal) de Napoleão Mendes de Almeida (Editora Saraviva):

A posteriori – pelo que segue

A priori – segundo um princípio anterior

Ab aeterno – desde toda a eternidade

Ab imo corde – do fundo do coração

Ab initio – desde o princípio

Ab ovo – desde o princípio, desde o ovo

Ad amussim – à risca, com exatidão

Ad hoc – para o caso, eventualmente

Ad libitum – a vontade

Ad nutum – segundo a vontade, ao abítrio

Ad referendum – pendente de aprovação

Bis – duas vezes

Coram populo – em público, em alto em bom som

Currente calamo (pronuncie cálamo) – ao correr da pena

Et similia – e coisas semelhantes

Ex abrupto – repentinamente, inopinadamente, arrebatadamente

Ex cathedra – de cátedra, em função do próprio cargo

Ex corde – do coração

Ex expositis – do que ficou exposto

Ex officio (pronuncie êx ofício) – por lei, oficilamente, em virtude do próprio cargo

Ex positis (pronuncie pósitis) – do que ficou assentado

Ex professo - como professor, magistralmente, com toda a perfeição

Exclusive – exclusivamente

Exempli gratia (pronuncie grácia) – por exemplo

Gratis – de graça

Grosso modo – por alto, resumidamente

Ibidem – aí mesmo, no mesmo lugar

Idem – o mesmo

In fine – no fim

In limine – no limiar, no princípio

In perpetuum – para sempre, para perpetuar

In totum – em geral, no todo, totalmente

Inclusive – inclusivamente

Infra – abaixo, no lugar inferior

Inter pocula – no ato de beber, no festim

Ipsis verbis – com as mesmas palavras, sem tirar nem por

Ipso facto – em virtude desse mesmo fato

Lato sensu – em sentido geral

maxime – principalmente, mormente

Mutatis mutandis – fazendo-se as mudanças devidas

Pari passu – a passo igual, junto

Per fas et per nefas – a torto e a direito, quer queira quer não, por qualquer meio

Primo – em primeiro lugar

Pro forma – por mera formalidade

Quantum satis ou quantum sufficit – o suficiente, o estritamente necessário

Retro – atrás

Secundo – em segundo lugar

Sic – assim, deste modo, com as mesmas palavras

Sine die – indeterminadamente, sem fixar dia

Statu quo – no estado em que

Stricto sensu – em sentido restrito

Supra – acima, no lugar superior

Una voce – a uma voz, unanimemente

Verbi gratia – por exemplo

Vice-versa – às avessas, em sentido inverso

O encontro entre o papa e os bispos austríacos

Andrea Tornielli também comenta, trazendo a mesma foto postada abaixo, o encontro do papa com os bispos austríacos. Segue tradução livre do post de seu blog:

Ao término do encontro com os bispos austríacos bento XVI lhes conclamou a viver uma maior comunhão com Roma e “a urgência do aprofundamento da fé, da fidelidade ao Concílio Vaticano II e ao magistério pós-conciliar da Igreja”. Os bispos austríacos presentes – informa a Sala de Imprensa do vaticana – eram os card. Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e presidente da Conferência episcopal Austríaca, mons. Alois Kothgasser, arcebispo de Salzburg, mons Egon Kapellari, bispo de Graz-Seckau e vice-presidente da Conferência Episcopal Austríaca, mons. Ludwig Schwarz, bispo de Linz (na foto do post abaixo em procissão de Corpus Christi). Durante os encontros de ontem e hoje “foram tratados, em um diálogo fratermo e em espírito construtivo, alguns dos temas sobre a situação da diocese de Linz e da Igreja da Áustria, projetando soluções para os problemas em ato”. Se falou também “de questões doutrinais e pastorais e da situação do clero, do laicato, dos seminários maiores e da faculdade teológica de Linz e em outras dioceses da Áustria”. Além dos cardeais Re e Hummes, e o núncio de Vienna Zurbriggen, estavam presentes o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Levada, da Educação católica Grocholewski e o presidente do Pontifício Conselho para os leigos, cardeal Rylko.

Vatican issues declaration on Church in Austria

It concerns, before anything else, the situation in the Diocese of Linz.
The Holy See has today, Tuesday, issued the following Declaration on the two meetings of Cardinal Schönborn and the three other Austrian Bishops which have taken place since yesterday, Monday, with Pope Benedict XVI. and with leading representatives of the Roman Curia in the Vatican. The new Apostolic Nuncio in Austria, Archbishop Peter Stephan Zurbriggen attended.
The Holy Father asked the shepherds, in particular, to attempt renewal by engaging in catechesis in the light of the Catechism the Catholic Church. Tomorrow, Wednesday, the summer session of the Austrian Bishops’ Conference begins in Mariazell.

* * *
Attending
Cardinal Christoph Schoenborn
Archbishop of Vienna, Chairman of the Austrian Bishops’ Conference
Archbishop Alois Kothgasser
Archbishop of Salzburg
Bishop Egon Kapellari
Bishop of Graz-Seckau, Vice Chairman of the Austrian Bishops’ Conference
Bishop Ludwig Schwarz Bishop of Linz
Also present was:
Archbishop Peter Stephan Zurbriggen
Apostolic Nuncio to Austria
From the side of the Roman Curia:
Cardinal Giovanni Battista Re
Prefect of the Congregation for Bishops
Cardinal William Joseph Levada
Prefect of the Congregation for the Doctrine of the Faith
Cardinal Claudio Hummes
Prefect of the Congregation for the Clergy
Cardinal Zenon Grocholewski
Prefect of the Congregation for Catholic Education
Cardinal Stanisław Ryłko
President of the Pontifical Council for the Laity

At this meeting, genuine collegiality was identified and in a fraternal dialogue and in a constructive spirit some topics relating to the situation of the Diocese of Linz and the Church in Austria were discussed, solutions for current problems being addressed. The Holy Father recalled the urgency of deepening of faith, full fidelity to Vatican II and the Magisterium of the post-conciliar Church and the renewal of catechesis in the light of Catechism of the Catholic Church. Moreover, doctrinal and pastoral issues and issues pertaining to the situation of the clergy, the laity, the seminaries and Theological Faculties in Linz and in other dioceses in Austria were discussed.
The Austrian Bishops thanked the Holy Father for his paternal care and for this encounter, as a sign of his solidarity with the Church in Austria, and expressed to him their full communion and loyalty. The Austrian Bishops also thank the Roman Curia for the fruitful cooperation and for their readiness to assist in the matter.
Cathcon: Linz has got a very limited time to come to order or there will be an Apostolic Visitation, and a new Bishop.
Do blog Cathcon

Eis o motivo da convocação dos bispos austríacos ao Vaticano

Está explicado por mais essa imagem por que Bento XVI convocou os bispos austríacos para uma conversinha.

crhisti

Procissão de Corpus Christi em Linz, Áustria

Do blog de Damian Thompson

Il ghetto per decreto

Um brinde: primeiro à consciência, depois ao papa

Em seu último livro publicado na Itália - L'elogio della coscienza: la verità interroga il cuore - Bento XVI tenta demonstrar, em meio ao relativismo moral que perpassa as sociedades ocidentais, qual a função do papado. De fato, o papado é uma instituição não muito compreendida, especialmente nesses tempos. Corriqueiramente me perguntam sobre o que acho de Ratzinger, sempre em comparação a João Paulo II, o papa midiático que encantava a todos com seu sorriso e até mesmo fragilidade com o passar dos anos. Frente à repulsa a qualquer tipo de autoridade, Bento XVI visa lembrar qual o significado do papado e para isso se utiliza de uma frase do famoso cardeal John Henry Newman (século XIX). Em uma tradução livre, Newman afirma: "Certamente se eu devesse levar a religião a um brinde depois do almoço - coisa que não é muito indicado fazer - então eu brindaria ao papa. Mas primeiro pela consciência, depois pelo papa". O cardeal visava minimizar as premissas da Igreja ultramontana ao afirmar que se deva aceitar a autoridade do papa somente quando é considerada junto do primado da consciência. Ratzinger utiliza-se dessa frase para afirmar, contra o subjetivismo moderno, que o indivíduo tem em si a "presença perceptível e imperiosa da voz da verdade" dentro de si e que "a consciência é a superação da mera subjetividade no encontro entre a interioridade do homem e a verdade que provém de Deus" (p.18). Segundo Bento XVI, "a verdadeira natureza do ministério de Pedro tornou-se incrompreensível no todo na época moderna precisamente porque nesse horizonte mental se pode pensar a autoridade só com categorias que não consentem mais alguma ponte entre sujeito e objeto". Ratzinger utiliza-se do conceito de anamnesis para falar da missão petrina. Como carregamos as "sementes do Verbo" em nossos corações, somos capazes, como nos fala Santo Agostinho, do Bem. Porém, essa capacidade não é tematizada, mas sim um senso interior, uma capacidade de reconhecimento. Para Bento XVI, a anamnesis infusa no nosso ser precisa de uma ajuda do exterior para tornar-se consciente de si. Aí está a função do papa, uma função maiêutica. Mais do que diretivas da hierarquia, afirma, é a capacidade de orientamento da memória da fé simples, que leva ao discernimento dos espíritos. "Só em tal contexto se pode compreender corretamente o primado do papa e a sua correlação com a consciência cristã", nos diz.

Bispos austríacos em Roma

Bento XVI convocou os bispos da Áustria ao Vaticano para reuniões entre hoje e amanhã. Assunto: questões internas da Igreja austríaca, especialmente o terremoto que enfrentrou depois do caso de Gehrard Wagner, tradicionalista nomeado pelo papa para assumir a diocese de Linz, ter sido levado por campanha midiática, segundo Tornielli, a pedir demissão mesmo antes de ser consagrado. É fato que a Igreja austríaca padece com sangria dos fiéis, padres casados e abusos litúrgicos, como podem ver no video que vai abaixo, que é no mínimo inusitado.


Novas ordenações na FSSPX

Os quatro bispos lefevristas que tiveram suas excomunhões levantadas por Ratzinger em janeiro passado decidiram que irão ordenar vinte e um padres para a FSSPX. Previstas para o final de junho, serão três ordenações em Zaitzkofen, na Bavária, treze no Seminário de Santo Tomás em Winona, Minnesota, e o restante em Ecône, na Suíca. O que é interessante citar, segundo o The Tablet, é que as ordenações, de acordo com a FSSPX, terão a permissão da Santa Sé. O bispo de Regensburg, Gerhard Müller, afirma que as ordenações são "provocações". Ele diz: "One simply must suspend everything until this Society's position is cleared up as far as canon law is concerned. In the letter the Society wrote to the Pope in January, they said they fully accepted the Pope's primacy ... [T]hey are not prepared to take the consequences."

Moto proprio leva Ecclesia Dei para Doutrina da Fé

Segundo Andrea Tornielli, será publicado na próxima semana um moto proprio de Bento XVI que leva a Comissão Ecclesia Dei, aquela que cuida do diálogo com os tradicionalistas, a organismo interno da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício, como os jornalistas geralmente gostam de frisar. Em 4 de julho, Darío Castrillón Hoyos, que completa seus 80 anos, deixará o cargo que ocupa desde a instituição da Comissão em 1988. o organismo passará para as mãos do norte-americano Willian Levada, que já preside a Doutrina da Fé.

A reforma de Bento XVI entre inovação e tradição

Recensão publicado na Revista Brasileira de História das Religiões.


BUX, Nicola. La riforma di Benedetto XVI: la liturgia tra innovazione e tradizione. Casale Monferrato: Piemme, 2008.


A liturgia foi um dos grandes temas que mobilizaram os católicos no século XX. O desenvolvimento do movimento litúrgico na Bélgica, França e inclusive no Brasil, acenderam animosidades entre aqueles que visavam uma liturgia mais viva e aqueles que defendiam a permanência daquela estabelecida por Pio V, na esteira do Concílio de Trento. Podemos dizer que o Concílio Vaticano II foi um dos momentos mais importantes do século XX sobre a questão litúrgica, já que com a sua constituição Sacrossantum Concilium lançava novo olhar sobre ela. As lutas interpretativas em torno desse documento, e não só dele, mas de todos os textos conciliares, levou ao que alguns denominam de “abusos” na prática litúrgica, apontando assim para um olhar negativo em relação a todo o concílio, o que levou aos sérios afastamentos, até ao cisma de Marcel Lefebvre e seus seguidores em 1988. Para o arcebispo a missa tridentina era a “missa de sempre” e assim deveria continuar. A fim de aproximar-se destes grupos no seio da catolicidade, J. Ratzinger, que acompanhou a criação da Comissão Ecclesia Dei, especialmente constituída para dialogar com os grupos tradicionalistas, publicou em 2007 o moto proprio de Bento XVI Summorum Pontificum, possibilitando, desde então, que a missa tridentina pudesse ser realizada sem a prévia permissão do bispo, como era anteriormente acordado. Mais uma vez não faltaram reações exaltadas. Enquanto uns comemoravam o documento, pela renovada possibilidade de terem a missa tridentina sem precisarem seguir burocracia que não raramente não resultava como o esperado, outros, partidários do conclamado “espírito do concílio”, viam no documento de Bento XVI mais um ato de traição ao concílio e sua carga de renovação. Para incendiar ainda mais a conjuntura, em mais um passo de aproximação, o papa levantou as excomunhões dos bispos lefevbvristas em janeiro passado. Uma defesa do documento e da atitude de Ratzinger pode ser lida no livro do consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, Nicola Bux, La riforma di Benedetto XVI: la liturgia tra innovazione e tradizione. Prefaciado pelo célebre jornalista Vittorio Messori, Bux trata dos significados da liturgia e as batalhas travadas em torno dela.

Nos capítulos 1 e 2 – La sacra e divina liturgia e A chi ci avviciniamo con il culto divino – Bux dá sua compreensão do que significa a liturgia, quais seus papéis, sua relação com a sacralidade. Para ele deve-se retomar a idéia de que existe uma continuidade entre a Igreja que nasce do Vaticano II e aquela que existe antes dele. Deve-se olhar para o passado, recebê-lo e renová-lo. Isso seria a verdadeira reforma. Assim, afirma que “senza critica orgogliosa e presunzione aspra, non scaricando il passato ma sopportandolo in continuità e cosi rinnovandolo”.

No capítulo 3 – La Battaglia sulla riforma liturgica – o autor entra no cerne da discussão ao tratar dos conflitos em torno da questão e os significados das posições de Bento XVI sobre o tema. Citando Ratzinger e o moto proprio Summorum Pontificum, Bux afirma que a sua promulgação visa à reconciliação com os lefevristas e a superar a ruptura operada no processo de reforma litúrgica, que contrapunha o novo rito ao antigo. A fim de defender o a perspectiva de que na liturgia existe crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura, o autor traz palavras de Bento XVI e despende algumas páginas analisando a encíclica de Pio XII Mediator Dei, o documento sobre liturgia mais importante antes do Vaticano II. No documento pode-se perceber, segundo Bux, que “la tradizione è necessária e l’innovazione ineluttabile, ed entrambe sono nella natura del corpo ecclesiale come del corpo umano”. O autor trata das contendas nascidas da promulgação do Novus Ordo Missae por Paulo VI em 1969, da chamada “intervenção Ottaviani” e de algumas atitudes que considera desvirtuamentos do projeto original da Sacrossantum concilium e do papa Montini.

No quarto capítulo – La tregua del papa – Bux trata do moto proprio Summorum Pontificum e traz um pouco da história dos missais. Segundo ele, o documento teve três escopos centrais: favorecer a reconciliação interna da Igreja; oferecer a todos a possibilidade de participar da “forma extraordinária”, garantir o direito ao povo de Deus ao uso da “forma extraordinária”. O documento viria a corrigir a idéia, tanto de progressistas quanto de tradicionalistas, de que o missal romano, publicado pela última vez em 1962, e o missal de Paulo VI estavam em contraposição. Bento XVI afirmava que eram “due stesure” do desenvolvimento de um mesmo rito. Desta forma, o papa reafirmava sua, podemos dizer, hermenêutica da continuidade, tema tratado pele primeirva vez por ele em um discurso aos cardeais no Natal de 2005. Assim afirma no documento: “Non c’è nessuna contraddizione tra l’una e l’altra edizione del messale romano. Nella storia della liturgia c’è crescita e progresso, ma nessuna rottura. Cio che per le generazioni anteriori era sacro, anche per noi resta sacro e grande e non può essere improvvisamente del tutto proibito o, addirittura, giudicadom dannoso. Ci fa bene a tutti conservare le ricchezze che sono cresciute nella fede e nella preghiera della Chiesa, e di dar loro il giusto posto”. Para Bux, a atitude do papa vem no sentido de se achar o equilíbrio: primeiro, inserir novamente na unidade os tradicionalistas, especialmente os seguidores de Lefebvre e, segundo, demonstrar aos “inovadores” que a liturgia não é propriedade privada e que não deve ser manipulada ao livre gosto. Segundo o autor, logo após a promulgação do moto proprio surgiram algumas interpretações equivocadas, como aquelas que afirmam que a atitude do papa se deu apenas para aproximar os tradicionalistas. Para Bux, ao contrário, o documento visava demonstrar que a antiga liturgia jamais tinha sido abolida e que “l’aggiornamento di papa Giovanni del messale del 1962 non può essere contrapposto a quello di Paolo VI avvenuto otto anni dopo, ma tenuto insieme come una ricchezza: appartiene alla regula fidei come espressione straordinaria e non eccezionale, accanto a quella ordinaria e normale”.

No capítulo 5 – La crisi ecclesiale e il crollo della liturgia – Bux trata de alguns aspectos crise pós-conciliar no campo litúrgico. O estudioso faz uma defesa ampla do moto proprio Summorum Pontificum. Para o teólogo, a crise que se abateu sobre a liturgia foi devido o fato de que no centro da ação litúrgica, frequentemente, não está mais Deus e a adoração a Ele, mas os homens e a comunidade. A crise começa quando a liturgia deixa de ser vivida como adoração em Jesus Cristo na Trindade e como celebração de toda a Igreja e se aprofunda quando se extravia o espírito da liturgia, reduzindo-a a uma autocelebração de uma comunidade particular. Para corroborar sua afirmação, Bux cita palavras retiradas das memórias pessoas de Joseph Ratzinger: “Sono convinto che la crise ecclesiale in cui oggi ci troviamo dipende in gran parte dal crollo della liturgia”. A tese central do capítulo é que o moto proprio de Bento XVI significa mais um ato de Bento XVI em prol da hermenêutica da continuidade do Vaticano II. Se por um lado os tradicionalistas afirmam que a Igreja pré-conciliar foi traída pelo concílio, os progressistas defendem que a Igreja pós-conciliar traiu o concílio. Ambos os grupos partem, assim, de uma interpretação descontínua do Vaticano II. Bux nos diz: “L’unico modo di capire il moto proprio è quindi di inquadarlo come ulteriore sviluppo in continuità com tutta la tradizione della Chiesa [...] nel senso della continuità della comunione cattolica anche in âmbito litúrgico, tra tradizione e innovazione”. Dessa forma, o missal de Paulo VI (1969) constitui uma renovatio do missal promulgado por Pio V em 1570.

No sexto capítulo – Come incontrare il mistero – Bux inicia com uma persuasiva afirmação: perdeu-se o senso da liturgia porque foi perdido o senso da presença de Deus entre nós. O autor deseja trazer elementos específicos para uma vivência litúrgica que respeite seus elementos mais profundos. Despende algumas páginas sobre o “serviço sacerdotal” onde afirma que “la santa messa è come un’opera musicale scritta da un autore: va eseguita com fedeltà e non interpretata”. Em outra seção fala da participação dos fiéis. Segundo ao autor, o culto católico passou da adoração de Deus ao exibicionismo do padre, dos ministros e dos fiéis, com a piedade sendo abolida e liquidada pelos liturgistas como devocionismo, negando formas espontâneas de devoção de piedade.

O último capítulo – Un nuovo movimento litúrgico – passa a ser um clamor por uma nova forma de pensar a liturgia, não mais como uma ruptura, mas sim como algo orgânico e que respeite o passado. Para Bux, a renovação conciliar da liturgia tem ainda riquezas não exploradas, que necessitam ser colocadas em andamento, além de correções e integrações. O autor chega a sugerir algumas formas de reverter a “confusão” que se instalou na liturgia: a instituição de “visitas apostólicas” para a liturgia, já que devido à crise de obediência os documentos da Congregação para o Culto Divino ficam sem a devida acolhida; que os reitores e diretores das faculdades teológicas estejam conscientes das “deformações” e do “modo reto de celebrar”; promover encontro de sacerdotes e seminaristas dos movimentos eclesiais que são atentos à disciplina da Igreja; estudar o magistério eclesiológico e litúrgico de Pio XII (encíclicas Mystici Corporis e Mediator Dei) e a tradição litúrgica do Oriente. Bux tem como documento-chave de suas considerações a Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis.

A visão de liturgia e de Igreja que é trazida por Nicola Bux nessa obra é aquela orgânica, ligada estritamente ao âmbito eclesial e que reporta inúmeras vezes ao próprio pensamento de Bento XVI. O que podemos entrever em suas linhas é uma defesa da conduta seguida por Ratzinger na sua aproximação com os grupos tradicionalistas, principalmente com os padres da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), e uma estratégia bem pensada, contudo não tão bem executada (vide a “questão Richard Willianson”): a de pôr mais uma pedra sobre a hermenêutica da ruptura (base das gramáticas tradicionalistas e progressistas), a principal responsável, segundo o pontífice, da chamada “crise pós-conciliar”. A partir da liturgia, Bento XVI coloca mais uma pedra, senão a mais pesada delas.

Piacenza e Hummes esclarecem sobre "demissão clerical"

Depois de algumas incongruências da mídia, o que não é novidade no que diz respeito à Igreja romana, Piacenza e Hummes explicam, em matéria do Zenit, as novas diretrizes da Congregação para o Clero sobre padres que não cumprem plenamente o celibato. Reproduz-se abaixo.
Zenit, 6 de junho
A Santa Sé não introduziu processos automáticos para a demissão do estado clerical nem impulsionou uma “revolução da disciplina eclesiástica para o clero”, declara um representante vaticano.
Trata-se de uma diretiva em coerência total com o direito canônico sobre o celibato sacerdotal, que responde a exigências pastorais particulares que os bispos têm de enfrentar no governo ordinário de sua diocese, explica o arcebispo Mauro Piacenza, secretário da Congregação para o Clero.
Em uma entrevista concedida nesta sexta-feira à Rádio Vaticano, o prelado italiano esclareceu interpretações erradas de uma carta enviada pela Congregação para o Clero aos núncios apostólicos para que informassem aos bispos diocesanos sobre estas novas faculdades concedidas pelo Papa a esta congregação vaticana em 30 de janeiro.
Em particular, alguns meios de comunicação haviam anunciado que estas novas normas preveem que o bispo aceite de maneira automática a demissão do estado clerical do sacerdote que leva uma vida em contradição com o celibato ou que tem comportamentos escandalosos depois de certo número de anos.
“Não há nada automático – declara Dom Piacenza. Tudo se avalia caso a caso e sempre em casos de situações graves. Ninguém pode pensar superficialmente em uma espécie de genérica simplificação em uma matéria tão delicada. Nenhum automatismo, mas avaliação, e avaliação rigorosa!”, afirma.
Segundo explicou em dias passados o cardeal Cláudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, estas nova disposições se aplicam ao caso dos sacerdotes que abandonam o ministério para conviver com uma mulher ou casar-se civilmente, e que em certas ocasiões têm filhos sem nem sequer avisar o seu bispo.
“Pelo bem da Igreja e do sacerdote que abandona seu ministério – havia dito o cardeal Hummes –, é conveniente que a dispensa possa acontecer para voltar a colocar a pessoa em uma situação adequada, especialmente se há filhos.”
“Os filhos de um sacerdote têm direito de ter um pai em uma situação correta diante dos olhos de Deus e da própria consciência”, havia explicado o purpurado brasileiro para explicar o motivo das novas disposições, que “nascem da necessidade de ajudar estas pessoas”.
Nestes casos, e aqui está a novidade, o bispo não precisa esperar a que o passo seja dado pelo sacerdote, mas pode “tomar a iniciativa” para empreender o processo de demissão do estado clerical.
Dom Piacenza explica que esta norma, “em continuidade e coerência com o direito canônico vigente”, permite aos bispos de todas as dioceses do mundo dar este passo “com autêntica paternidade e caridade pastoral”.
Entre as faculdades especiais concedidas pelo Papa à Congregação para o Clero está, antes de tudo, a de tratar dos casos de demissão do estado clerical quando os sacerdotes tenham contraído casamento civil e não pensem em mudar de vida, assim como no caso de “clérigos culpados de graves pecados externos contra o sexto mandamento”.
As medidas permitem ao bispo “infligir uma justa pena ou penitência por uma violação externa da lei divina ou canônica”; e em casos verdadeiramente excepcionais e urgentes, e diante da falta de vontade de arrependimento por parte da pessoa, poderão infligir-se “penas perpétuas”, entre elas, “a demissão do estado clerical quando certas circunstâncias o exigirem”.
No entanto, explica o prelado, em cada caso se dará “um legítimo processo administrativo”, no qual “o direito à defesa sempre deve ser garantido”.
Segundo estas faculdades, será possível declarar a perda do estado clerical no caso daqueles clérigos que tenham abandonado o ministério “por um período superior a cinco anos consecutivos, e que persistam nesta ausência voluntária e ilícita do ministério”.
Porém, declara, nestes casos não se trata de um automatismo.
O celibato sacerdotal, conclui Dom Piacenza, é “um dom que a Igreja recebeu e quer custodiar, mais convencida que nunca de que é um bem para si mesma e para o mundo”.

Penas mais severas para padres que violam a obrigação da castidade

Segundo matéria do Corriere, o papa Bento XVI deu mais poder de intervenção à Congregação para o Clero. Seu objetivo é facilitar os meandros burocráticos na punição daqueles padres que não cumprem com a obrigação da castidade. O secretário da Congregação, Mauro Piacenza, em entrevista para a Rádio Vaticano, afirmou que existem várias situações de grave indisciplina do clero e que as tentativas de superamento do problema não têm resultados eficazes. Dessa forma, o papa concedeu à Congregação algumas faculdades especiais, que foram transmitidas para todos os bispos do mundo pelos núncios apostólicos. Uma delas é a de declarar a perda do estado clerical.