Bento XVI e Sarkozy

No jornal O Lutador

A “laicidade positiva”: um caso de enamoramento


Mais de uma vez tratei nessa coluna do tema da liberdade e da laicidade. Temas de importância profunda para as relações humanas e para a organização dos estados de direito, são assuntos que trazem em si carga imperativa sempre atual. É no âmbito da Igreja e suas relações que novamente ressoa o sinal. A viagem de Bento XVI à França foi marcada indelevelmente com o sinal da discussão sobre a laicidade. Mesmo antes de Ratzinger pisar pela primeira vez no país como papa muito já se falava sobre a questão das relações da Igreja e Estado, especialmente no caso o francês, nesse nosso tempo que alguns já denominam de “pós-secular”.

O presidente da França, Nicholas Sarkozy, já dava sinais, desde que foi eleito, que vinham em encontro ao pensamento do papa. Entretanto, o momento central e que já entrou para a história do século XXI foi o discurso de Sarkozy em 20 de dezembro de 2007, quando, na Basílica de São João de Latrão, demonstrou o que pensa sobre as relações da religião e o Estado. A principal noção defendida por Sarkozy é a de “laicidade positiva”, uma noção que, em primeiro lugar, se calca na idéia de que para haver uma, poderíamos dizer, “boa” e “fecunda” laicidade, não é necessário, ao contrário, imprudente seria, desejar eliminar as raízes cristãs que constituíram a história daquele país. Assim, ao contrário de análises superficiais que se multiplicam indiscriminadamente, Sarkozy não visa religar novamente o Estado francês à religião católica. O presidente afirmou que “ninguém contesta que o regime francês da laicidade é hoje uma garantia de liberdade: liberdade de crer ou de não crer, liberdade de praticar uma religião e liberdade de mudar, liberdade de não ser ferido em sua consciência por práticas ostensivas, liberdade para os pais de dar aos filhos uma educação conforme suas crenças, liberdade de não ser discriminado pela administração em função de sua crença”. Além disso, afirmou que “a laicidade não deveria ser a negação do passado. Não tem o poder de tirar a França de suas raízes cristãs. Tentou fazê-lo. Não deveria.” E concluiu: “como Bento XVI, considero que uma nação que ignora a herança ética, espiritual, religiosa de sua história comete um crime contra a sua cultura, contra o conjunto de sua história, de patrimônio, de arte e de tradições populares que impregna a tão profunda maneira de viver e pensar. Arrancar a raiz é perder o sentido, é debilitar o fundamento da identidade nacional, e secar ainda mais as relações sociais que tanta necessidade têm de símbolos de memória. Por este motivo, temos de ter juntos os dois extremos da corrente: assumir as raízes cristãs da França, valorizá-las, defendendo a laicidade finalmente amadurecida. Este é o passo que eu quis dar nesta tarde em São João de Latrão.”

De fato, a laicidade francesa nasceu de uma revolta anteriormente perpetrada contra qualquer símbolo que pudesse lembrar o período do Antigo Regime, assinalado pela forte presença da Igreja e sua ligação quase carnal com o Estado francês, chamado então de galicanismo. A Revolução Francesa de 1789 teve como um de seus objetivos eliminar totalmente a presença da Igreja Católica em seu território, e a partir de um novo culto ao Ser Supremo e a Razão extinguir de uma vez para sempre a presença de Deus na sociedade, o que os antigos estóicos chamariam de apostrophe, ou seja, a renúncia ao plano transcendental e divino. Tal ânsia descristianizadora foi uma constante no país e, para muitos, inclusive Sarkozy, deixou as portas abertas para a entrada de outras religiões estranhas à história cultural francesa, principalmente o islamismo. Alguns estudiosos especulam que o presidente francês e o papa Bento XVI são partidários da famosa teoria do “choque das civilizações” de Samuel Huntington. Tal teoria defende que a fonte principal de conflitos no novo milênio será cultural, e não mais econômica ou ideológica. Dessa forma, uma das principais maneiras de se proteger é valorizando a própria história e as raízes culturais de seu país.

Ao discursar no Palácio do Eliseu no último dia 12 em decorrência da presença do papa na França, Sarkozy repetiu novamente sua tese e defendeu veementemente à laicidade positiva. Bento XVI, por seu turno, olhava-o e ouvia-o atentamente. Ao afirmar que o pensamento cristão não fala somente de Deus, mas também do homem, notava-se em Bento XVI uma respiração ofegante e em seu rosto um júbilo profundo, quase esboçando um sorriso. Era um segundo momento de enamoramento entre Bento XVI e Nicholas Sarkozy.

Guardini e o homem


Será publicado na Itália em janeiro de 2009, sob a organização de Massimo Borghesi e Carlo Brentari o famoso livro L'uomo. Fondamenti di un'antropologia cristiana (Editora Morcelliana), de Romano Guardini. Atualmente ando pensando que a Antropologia filosófica é fundamental e de importância central para o debate atual. Quem sabe uma editora brasileira toma o projeto de uma tradução dessa obra?

Pio XII e os judeus

Sobre as relações entre Pio XII e os judeus na Segunda Grande Guerra. Do Comitatio Pacelli:

“ Il Congresso dei delegati delle Comunità Israelitiche Italiane, tenutosi in Roma per la prima volta dopo la Liberazione, sente imperioso il dovere di rivolgere reverente omaggio alla Santità Vostra ( Pio XII ), ed esprimere il più profondo senso di gratitudine che anima gli ebrei tutti, per le prove di umana fratellanza loro fornite dalla Chiesa durante gli anni delle persecuzioni... Gli ebrei ricorderanno perpetuamente quanto, nel tremendo periodo trascorso, per disposizione dei Pontefici, la Chiesa ha fatto per loro” ( Mozione approvata nel III Congresso delle Comunità Israelitiche Italiane tenutosi a Roma nel 1946 )

Debate sobre a crise do marxismo

Não é de hoje que se fala sobre a crise do marxismo. De fato, mesmo antes da queda do muro de Berlim, que foi o marco dessa crise, algumas vozes já se faziam ouvir sobre ela. Bem, em São Paulo acontecerá no dia 2 de outubro próximo uma palestra sobre a dita crise com o italiano Massimo Borghesi da Universidade de Perugia. O debate será na Rua Maestro Cardim, 370, no bairro da Bela Vista, próximo do Metrô São Joaquim (das 19h30 às 22h).

Editores católicos e tentação mundana

Em vista da republicação da Instrução acerca de alguns aspectos do uso dos instrumentos de comunicação social na promoção da doutrina da fé, pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Nicola Bux "puxa a orelha" dos editores católicos em texto no L'Osservatore Romano. Abaixo segue trecho:

"La Congregazione per la Dottrina della Fede, ripubblicando l'Istruzione circa alcuni aspetti dell'uso degli strumenti di comunicazione sociale nella promozione della dottrina della fede, in sostanza vuole ricordare che una fede che non si sa difendere non si può diffondere, e così per la morale cristiana. Un esempio: non si può continuare ad affermare e a scrivere da parte di esegeti e teologi cattolici che la Risurrezione non sia un fatto storico, che il sepolcro vuoto sarebbe una "leggenda eziologica", mentre sarebbe storica la fede nel Risorto dei discepoli."

Nova Instrução sobre educação

No dia 25 de setembro, quinta-feira, será apresentada aos jornalistas a Istruzione sugli Istituti Superiori di Scienze Religiose, organizado pela Congregação para a Educação Católica.

Bento XVI e o avanço da razão

Artigo do vaticanista Sandro Magister, na revista do Instituto Aspen, aponta os impactos políticos de três anos de pontificado de Bento XVI. Indo contra a previsão de que Ratzinger não teria a influência que teve João Paulo II, Magister nos diz que o pontificado de Bento XVI faz política, mas de forma original: "Se Giovanni Paolo II era stato il papa delle folgoranti intuizioni, Benedetto XVI è il papa del ragionare e dell’agire metodico. Il primo era anzitutto immagine, il secondo è principalmente "logos"."

Artigo de Nicholas Bonnal nos fala "De la superioritè intellectualle de Benôit XVI"

Congresso Anti-islamização causa polêmica

Em Colônia, na Alemanha, realizar-se-á um Congresso Anti-islamização em vista da construção de uma grande mesquita na cidade. Nele estará presente a extrema-direita européia, além do anúncio de muitos manifestantes contrários ao evento, o que pode causar tumultos. Confira a notícia aqui.

Pio XII restabelecido


Não é de hoje que a questão "Pio XII e judeus" assume várias tonalidades. A maior delas é a de que Pio XII não tomou posição alguma em referência ao massacre que se avizinhava na Alemanha de Hitler. Entretanto, vários historiadores sérios já apontaram em outra direção, sem cair na furor anti-católico capaz de vender muitos livros. Hoje, Bento XVI defende seu predecessor em discurso por ocasião do congresso organizado pelo Pave the way, presedida pelo judeu americano Gary Krupp. Foi a ele que o papa dirigiu essas palavras.

Fala o "peregrino do absoluto"

"De que progresso nos falam eles, esses esperantes às avessas, escavadores do nada?"
Léon Bloy (1846-1917), o autodenominado "peregrino do absoluto"
Aqui, umas poucas palavras do grande escritor

Quaerere Deum


Ao comentar sua viagem a França, Bento XVI, no L'Osservatore Romano de amanhã, faz afirmações importantes e belas sobre o que chama de "autêntica laicidade":
"Autêntica laicidade não é prescindir da dimensão espiritual, mas reconhecer que propriamente ela, radicalmente, é a garantia da nossa liberdade e da autonomia da realidade terrestre".
Comentando sobre a importância da vida monástica no momento de crise do Império Romano diz: "quaerere Deum - buscar Deus, ser em caminho em direção a Deus, resta hoje como ontem a via mestra e o fundamento de toda verdadeira cultura".
Aqui, no final da página, um artigo do Patriarca de Veneza, Angelo Scola, sobre os 150 anos de ordenação sacerdotal de Pio X.

Site sobre Giuseppe Siri


Descobri um site do famoso cardeal de Gênova, Giuseppe Siri, aquele que quase por duas vezes foi levado ao trono de Pedro e que esteve bastante próximo de Lefebvre, Mayer e Sigaud compando a minoria conciliar no Vaticano II. Vale a pena dar uma olhada. Quem quiser saber mais sobre sua história e atuação no concílio confira o livro de Nicla Buonasorte. Siri: tradizione e novecento. Bologna: Il Mulino, 2006. Ah! Tem também a famosa obra de Benny Lai. Il papa non eletto: Giuseppe Siri Cardinale di Santa Romana Chiesa. Roma-Brai: Laterza, 1993.