Nos meandros hermenêuticos de Ken Serbin

O iHu online de hoje traz uma entrevista de Kenneth Serbin, historiador da Igreja no Brasil e que acaba de lançar pela Companhia das Letras o livro Padres, celibato e conflitos sociais. Uma história da Igreja católica no Brasil.
Serbin é, poderíamos dizer, um "brasilianista". Com seu belo livro Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura, deixou límpido o caminho para quem deseja se embrenhar nesse campo movediço. Em sua entrevista, ao refletir sobre a mudança de perfil dos seminaristas de 1960 até hoje, Serbin conclui que aqueles que se formavam naquele período eram marcados pela "Igreja da libertação" e que os atuais, principalmente de 1990 para cá, são mais conservadores, estilo Marcelo Rossi. Sobre a dita "opção pelos pobres", Serbin infere que, hoje ainda, padres e bispos estão em favor dessa opção, "mas ela não é mais hegemônica como nas décadas anteriores. No passado, todos os bispos achavam importante reconhecer tal opção, e permitiam que os padres agissem nessa linha." Segundo o "brasilianista", "a Igreja do Concílio Vaticano II era mais solidária com as questões sociais e deixava de lado a espiritualidade tradicional, focando a salvação das pessoas na terra. Mas os jovens dos anos 1990 e 2000 não visam mais essa posição. Percebo, assim, uma nova preocupação com o “além desta vida”. Essa geração mais recente está recuperando aspectos do catolicismo que foram deixados de lado e ignorados pelos seminaristas dos anos 60." É aí que a porca torce o rabo: o Vaticano II. Os usos e abusos do Vaticano II. Que Igreja é essa que Serbin faz referência? O historiador fala como se a "Igreja do Vaticano II" fosse passado e utiliza-se de um tipo ideal que atualmente não cola mais. Ao afirmar que a "Igreja do Vaticano II" (não sei o que quer dizer com isso, mas vamos em frente) "deixava de lado a espiritualidade tradicional, focando a salvação das pessoas na terra", derrapa nas curvas hermenêuticas do concílio e, desculpem-me a sinceridade, falta com a verdade. Da onde saiu essa idéia de que a Igreja do importante Concílio Vaticano II focou a "salvação das pessoas na terra"? O concílio permitiu sim um novo olhar frente às realidades terrestres, mas diga aonde posso encontrar em seus documentos isso que Serbin afirma? Desde quando a Igreja, Corpo místico de Cristo, prenúncio da salvação eterna, deixou de olhar o céu como seu último objetivo? Penso que Serbin se equivocou. Ele não queria dizer a "Igreja do Concílio Vaticano II", mas sim "os seminaristas e padres brasileiros dos anos 1960 eram mais solidários com as questões sociais etc". Ficaria melhor, não?

1 comentários:

Andrea disse...

Sim, sim, perfeito seu comentário. As pessoas confundem a Igreja com seus filhos, o tempo todo. Uma coisa é o que a Igreja prega, decide, outra é o que fazem os padres, bispos, leigos...

Abraço!