28domingo,
Altar pos-conciliar e homilia de Natal de Bento XVI
19sexta-feira,
João XXIII e seus escritos
18quinta-feira,
Gramsci converte-se ao catolicismo
13sábado,
Centenário Plínio Corrêa de Oliveira
9terça-feira,
A busca do fundamento ou a deificação do nada?
Fora alguns nostálgicos, os mitos do século XIX e início do XX estão sendo lentamente abandonados. O progresso que caminha incansável rumo ao reino imanente, o fim da história como uma especulação historicista, a ciência libertadora e emancipatória, todos esses mitos caíram um a um, juntamente dos corpos carbonizados por revoluções e guerras incansáveis, sempre em nome do avançar da história. Sobre os escombros da débâcle dos mitos modernos o que vêm à tona é o nada e a solidão pós-moderna. De um otimismo exacerbado na ciência e suas benesses, entramos em um tempo no qual o que prevalece é o pessimismo e o desnorteamento frente a qualquer discurso que vise construir e admitir algum tipo de sentido nesse turbilhão marcado pela ansiedade existencial. Sobre os escombros de uma modernidade orgulhosa e soberba o que emerge é um homem desorientado à procura. De quê? De si mesmo. Em meio a tanta descrença e desesperança o homem quer saber quem é ele, qual o sentido da vida, o porquê da existência.
De fato, a grande aventura humana sempre foi marcada pela busca de si mesma, pelo o que me aproxima do outro, pelo que me faz mais humano. Isso não é um privilégio do tempo presente. Tal busca constitui o âmago do ser. Contudo, no mundo contemporâneo, marcado por fundamentalismos e relativismos, várias são as tentativas de banir a própria possibilidade de se formular as perguntas que nos levam a vislumbrar respostas sobre “quem sou eu”. Impedidos, perdemos o que existe de mais humano em nós, reificando-nos. Tais tentativas, veladas pelo manto de uma utilização duvidosa do conceito de “tolerância” e “multiculturalismo”, diminuem o homem em seu aspecto mais peculiar, daquele ser que pergunta, que procura, que deseja respostas, que visa o Todo. Presenciamos assim, parafraseando Horkheimer, o “eclipse da razão”.
Por outro lado, a razão pode ser eclipsada, mas não totalmente proscrita, pois se assim fizesse seria a idiotização do homem e seu posterior aniquilamento espiritual. O lançar-se na busca da justiça, da verdade, da bondade, da liberdade e da felicidade faz parte dos mais íntimos interstícios do homem e marca indelevelmente o seu caminhar. Muitos são os filósofos, teólogos e estudiosos que se envolveram na busca e na pesquisa desse fundamento do ser do homem por milhares de anos.
Podemos afirmar que a partir dessas exigências elementares o homem torna-se homem, humaniza-se, encontra com o semelhante, interage, cria a arte, a ciência, a filosofia, a religião e as civilizações. Desse impulso para viver em busca de respostas às exigências primordiais, dessa sede que nunca se farta de procurar por novos mananciais de água fresca do Todo é que nasce a história humana, tempo que escorre pelas nossas mãos e se derrama num grito de “por que”.
O filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983) nos fala que a busca de descobrir os significados das coisas, do sentido, constituiu e permeou a vida simbólica do homem, levando-o a se defrontar irremediavelmente com o problema de Deus. Qualquer que seja a resposta dada pelo homem a esse problema, – seja o ateísmo, o teísmo ou o agnosticismo –, este homem não tem a consciência de que a sua resposta é dada a uma questão anterior, isto é, a “um problema que subjaz às suas crenças”. Dessa forma, o ponto que está em questão é o enfrentamento inexorável do homem, indistintamente, com o que denomina de dimensão última do real.
Zubiri, deseja chamar atenção para o fato de que tal dimensão é algo estrutural da realidade humana. Por isso, o próprio ateísmo está inserido nessa mesma dinâmica de resposta do homem à sua própria condição. É uma resposta a esse enfrentamento com a dimensão última do real. Não uma resposta teológica, mas indubitavelmente teologal: “o problema de Deus, enquanto problema, não é um problema qualquer, arbitrariamente colocado pela curiosidade humana, mas é a realidade humana mesma em sua problematicidade constitutiva”.
A partir da reflexão do grande filósofo, parece que o desafio é fazermos o retorno a nós mesmos. Voltarmos para a nossa constituição mais íntima, deixar brotar nossos desejos mais profundos de amor, liberdade, felicidade e verdade. Voltar-nos e religarmo-nos ao fundamento do ser, pois corremos o sério risco, se não encararmos com seriedade essa tarefa da alma, de entronizar o nada deificado e tornarmo-nos néscios adoradores do vazio.
4quinta-feira,
Entre a busca e o barateamento da vida interior
No dia 18 de outubro de 2008 realizou-se no auditório da reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais o debate “Fé e conhecimento: a perspectiva do cientista, do poeta e do monge”. (a gravação completa encontra-se no site www.fafich.ufmg.br/~laps) O público no local foi em torno de 400 pessoas, além das 500 que acompanharam ao vivo pela internet, entre eles, muitos estudantes, professores e interessados pelo tema. O sucesso do debate demonstra que quando existe algo a ser falado, quando esse algo corresponde à interioridade do ser humano, quando o insere no jogo de ouvir, pensar, situar-se e implicar-se no que é dito, é possível agrupar um bom número de pessoas para refletirem juntas.
Ao perguntar-se se é possível articular fé e conhecimento, se são duas vias paralelas e que não se cruzam e se a fé é simplesmente acreditar cegamente em algo, as pessoas se sentem incitadas a pensarem suas próprias convicções e condutas. Ao perguntar-se sobre as razões de afirmações mais basais, de nossas vivências e experiências, lançamo-nos num desafio instigante de pensarmos nós próprios frente a um mundo que se transforma numa velocidade jamais vista. Em meio a tantas mudanças existe algo em mim que posso chamar de inato? Existe algo no homem que o constitui como ser?
Para a poetisa Adélia Prado, que esteve conosco nesse encontro e que nos possibilitou vislumbrar a relação entre fé e conhecimento a partir do fazer poético, a resposta é sim, e o sentimento moral é uma dessas coisas. Segundo a poetisa, “o mundo já nos é dado com suas órbitas, leis, sentimentos do bem e do mal”. A sensibilidade ética, para Adélia Prado, “já nasce conosco e ela nos persegue feito um aguilhão. É o instinto da alma, o instinto religioso que é a tendência que a alma, o espírito humano, tem de procurar aquilo que justifique a existência, o absurdo do fenômeno da nossa existência e a do mundo, alguma coisa que justifique a existência num centro de significação e sentido: o que? Por quê? O que sou? De onde vim? Para onde vou? Por que sofremos?”
Transitando do olhar poético ao pensamento místico cristão, a poetisa mineira afirma que “a alma humana quer encontrar algo que a descanse; um descanso da nossa humanidade, da nossa finitude que fica permanentemente querendo uma coisa infinita.” E assevera: “Ninguém é insensível a essas exigências”. Ninguém é insensível às exigências primeiras do coração humano. As exigências primárias de felicidade, liberdade, bem e verdade. Para a poetisa, é da “da experiência de nascer, sofrer, morrer, alegrar-se é que nascem religiões, ciência, filosofia e arte. Sem esses aguilhões nós estaríamos ainda no mesmo lugar. É isso que provoca e é a pulsão daquilo que nós chamamos de civilização e humanização [...] É a religião e a arte [...] por que escapam da cadeia da lógica [...] propiciam ao homem a chance de viver a vida simbólica”. A crítica de Adélia Prado vem nesse sentido: atualmente vivemos um vazio simbólico, que leva o homem a essa secura espiritual tão marcante nos tempos atuais.
Na verdade, poderíamos afirmar, que temos sim uma vida simbólica na chamada pós-modernidade, hiper-modernidade ou super-modernidade, como queiram chamar esses tempos os estudiosos. Contudo, uma parcela dessa vida simbólica que qualquer olhar mais atento flagra gira em torno dos shoppings, templos de consumo aonde o espaço público é privado e restrito e aonde o grande ato sacrificial se dá nas faturas por serem pagas. Tal vida simbólica dá-se na relação estabelecida pelo próprio consumidor-fiel e seus novos totens, adquiridos quase com confiança religiosa em sua tarefa libertadora e salvífica. O ato da compra (ou do débito) é convertido em prática sacramental, e suas conseqüências são sinais na alma de um alento momentâneo e quase um êxtase orgiástico, dependendo do totem adquirido. O produto não é um simples produto. Além de suas funções primárias ele nos possibilita um caminho para o céu: invejado e desejado pelo outro, o totem e sua utilização tornam-se caminhos de salvação que visam nos fazer crer que somos únicos e insubstituíveis aos olhos do Deus-Mercado. À religião do consumo, uma das marcas da vida simbólica atual, não somos imunes. Ajoelhamos permanentemente para os nossos totens, dignos de adoração e veneração, mas assinalados com seus prazos de validade em decorrência da mão-invisível do Deus –Mercado, que deve proporcionar novos e mais eficazes totens para encher nossos templos e nos fornecer melhores caminhos de salvação.
3quarta-feira,
Sobre o verdadeiro pecado

Ser si mesmo

Julián Marías ( Antropologia Metafísica)
2terça-feira,
Nova Dicta&Contradicta
