28domingo,
Altar pos-conciliar e homilia de Natal de Bento XVI
19sexta-feira,
João XXIII e seus escritos
18quinta-feira,
Gramsci converte-se ao catolicismo
13sábado,
Centenário Plínio Corrêa de Oliveira
9terça-feira,
A busca do fundamento ou a deificação do nada?
Fora alguns nostálgicos, os mitos do século XIX e início do XX estão sendo lentamente abandonados. O progresso que caminha incansável rumo ao reino imanente, o fim da história como uma especulação historicista, a ciência libertadora e emancipatória, todos esses mitos caíram um a um, juntamente dos corpos carbonizados por revoluções e guerras incansáveis, sempre em nome do avançar da história. Sobre os escombros da débâcle dos mitos modernos o que vêm à tona é o nada e a solidão pós-moderna. De um otimismo exacerbado na ciência e suas benesses, entramos em um tempo no qual o que prevalece é o pessimismo e o desnorteamento frente a qualquer discurso que vise construir e admitir algum tipo de sentido nesse turbilhão marcado pela ansiedade existencial. Sobre os escombros de uma modernidade orgulhosa e soberba o que emerge é um homem desorientado à procura. De quê? De si mesmo. Em meio a tanta descrença e desesperança o homem quer saber quem é ele, qual o sentido da vida, o porquê da existência.
De fato, a grande aventura humana sempre foi marcada pela busca de si mesma, pelo o que me aproxima do outro, pelo que me faz mais humano. Isso não é um privilégio do tempo presente. Tal busca constitui o âmago do ser. Contudo, no mundo contemporâneo, marcado por fundamentalismos e relativismos, várias são as tentativas de banir a própria possibilidade de se formular as perguntas que nos levam a vislumbrar respostas sobre “quem sou eu”. Impedidos, perdemos o que existe de mais humano em nós, reificando-nos. Tais tentativas, veladas pelo manto de uma utilização duvidosa do conceito de “tolerância” e “multiculturalismo”, diminuem o homem em seu aspecto mais peculiar, daquele ser que pergunta, que procura, que deseja respostas, que visa o Todo. Presenciamos assim, parafraseando Horkheimer, o “eclipse da razão”.
Por outro lado, a razão pode ser eclipsada, mas não totalmente proscrita, pois se assim fizesse seria a idiotização do homem e seu posterior aniquilamento espiritual. O lançar-se na busca da justiça, da verdade, da bondade, da liberdade e da felicidade faz parte dos mais íntimos interstícios do homem e marca indelevelmente o seu caminhar. Muitos são os filósofos, teólogos e estudiosos que se envolveram na busca e na pesquisa desse fundamento do ser do homem por milhares de anos.
Podemos afirmar que a partir dessas exigências elementares o homem torna-se homem, humaniza-se, encontra com o semelhante, interage, cria a arte, a ciência, a filosofia, a religião e as civilizações. Desse impulso para viver em busca de respostas às exigências primordiais, dessa sede que nunca se farta de procurar por novos mananciais de água fresca do Todo é que nasce a história humana, tempo que escorre pelas nossas mãos e se derrama num grito de “por que”.
O filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898-1983) nos fala que a busca de descobrir os significados das coisas, do sentido, constituiu e permeou a vida simbólica do homem, levando-o a se defrontar irremediavelmente com o problema de Deus. Qualquer que seja a resposta dada pelo homem a esse problema, – seja o ateísmo, o teísmo ou o agnosticismo –, este homem não tem a consciência de que a sua resposta é dada a uma questão anterior, isto é, a “um problema que subjaz às suas crenças”. Dessa forma, o ponto que está em questão é o enfrentamento inexorável do homem, indistintamente, com o que denomina de dimensão última do real.
Zubiri, deseja chamar atenção para o fato de que tal dimensão é algo estrutural da realidade humana. Por isso, o próprio ateísmo está inserido nessa mesma dinâmica de resposta do homem à sua própria condição. É uma resposta a esse enfrentamento com a dimensão última do real. Não uma resposta teológica, mas indubitavelmente teologal: “o problema de Deus, enquanto problema, não é um problema qualquer, arbitrariamente colocado pela curiosidade humana, mas é a realidade humana mesma em sua problematicidade constitutiva”.
A partir da reflexão do grande filósofo, parece que o desafio é fazermos o retorno a nós mesmos. Voltarmos para a nossa constituição mais íntima, deixar brotar nossos desejos mais profundos de amor, liberdade, felicidade e verdade. Voltar-nos e religarmo-nos ao fundamento do ser, pois corremos o sério risco, se não encararmos com seriedade essa tarefa da alma, de entronizar o nada deificado e tornarmo-nos néscios adoradores do vazio.
4quinta-feira,
Entre a busca e o barateamento da vida interior
No dia 18 de outubro de 2008 realizou-se no auditório da reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais o debate “Fé e conhecimento: a perspectiva do cientista, do poeta e do monge”. (a gravação completa encontra-se no site www.fafich.ufmg.br/~laps) O público no local foi em torno de 400 pessoas, além das 500 que acompanharam ao vivo pela internet, entre eles, muitos estudantes, professores e interessados pelo tema. O sucesso do debate demonstra que quando existe algo a ser falado, quando esse algo corresponde à interioridade do ser humano, quando o insere no jogo de ouvir, pensar, situar-se e implicar-se no que é dito, é possível agrupar um bom número de pessoas para refletirem juntas.
Ao perguntar-se se é possível articular fé e conhecimento, se são duas vias paralelas e que não se cruzam e se a fé é simplesmente acreditar cegamente em algo, as pessoas se sentem incitadas a pensarem suas próprias convicções e condutas. Ao perguntar-se sobre as razões de afirmações mais basais, de nossas vivências e experiências, lançamo-nos num desafio instigante de pensarmos nós próprios frente a um mundo que se transforma numa velocidade jamais vista. Em meio a tantas mudanças existe algo em mim que posso chamar de inato? Existe algo no homem que o constitui como ser?
Para a poetisa Adélia Prado, que esteve conosco nesse encontro e que nos possibilitou vislumbrar a relação entre fé e conhecimento a partir do fazer poético, a resposta é sim, e o sentimento moral é uma dessas coisas. Segundo a poetisa, “o mundo já nos é dado com suas órbitas, leis, sentimentos do bem e do mal”. A sensibilidade ética, para Adélia Prado, “já nasce conosco e ela nos persegue feito um aguilhão. É o instinto da alma, o instinto religioso que é a tendência que a alma, o espírito humano, tem de procurar aquilo que justifique a existência, o absurdo do fenômeno da nossa existência e a do mundo, alguma coisa que justifique a existência num centro de significação e sentido: o que? Por quê? O que sou? De onde vim? Para onde vou? Por que sofremos?”
Transitando do olhar poético ao pensamento místico cristão, a poetisa mineira afirma que “a alma humana quer encontrar algo que a descanse; um descanso da nossa humanidade, da nossa finitude que fica permanentemente querendo uma coisa infinita.” E assevera: “Ninguém é insensível a essas exigências”. Ninguém é insensível às exigências primeiras do coração humano. As exigências primárias de felicidade, liberdade, bem e verdade. Para a poetisa, é da “da experiência de nascer, sofrer, morrer, alegrar-se é que nascem religiões, ciência, filosofia e arte. Sem esses aguilhões nós estaríamos ainda no mesmo lugar. É isso que provoca e é a pulsão daquilo que nós chamamos de civilização e humanização [...] É a religião e a arte [...] por que escapam da cadeia da lógica [...] propiciam ao homem a chance de viver a vida simbólica”. A crítica de Adélia Prado vem nesse sentido: atualmente vivemos um vazio simbólico, que leva o homem a essa secura espiritual tão marcante nos tempos atuais.
Na verdade, poderíamos afirmar, que temos sim uma vida simbólica na chamada pós-modernidade, hiper-modernidade ou super-modernidade, como queiram chamar esses tempos os estudiosos. Contudo, uma parcela dessa vida simbólica que qualquer olhar mais atento flagra gira em torno dos shoppings, templos de consumo aonde o espaço público é privado e restrito e aonde o grande ato sacrificial se dá nas faturas por serem pagas. Tal vida simbólica dá-se na relação estabelecida pelo próprio consumidor-fiel e seus novos totens, adquiridos quase com confiança religiosa em sua tarefa libertadora e salvífica. O ato da compra (ou do débito) é convertido em prática sacramental, e suas conseqüências são sinais na alma de um alento momentâneo e quase um êxtase orgiástico, dependendo do totem adquirido. O produto não é um simples produto. Além de suas funções primárias ele nos possibilita um caminho para o céu: invejado e desejado pelo outro, o totem e sua utilização tornam-se caminhos de salvação que visam nos fazer crer que somos únicos e insubstituíveis aos olhos do Deus-Mercado. À religião do consumo, uma das marcas da vida simbólica atual, não somos imunes. Ajoelhamos permanentemente para os nossos totens, dignos de adoração e veneração, mas assinalados com seus prazos de validade em decorrência da mão-invisível do Deus –Mercado, que deve proporcionar novos e mais eficazes totens para encher nossos templos e nos fornecer melhores caminhos de salvação.
3quarta-feira,
Sobre o verdadeiro pecado

Ser si mesmo

Julián Marías ( Antropologia Metafísica)
2terça-feira,
Nova Dicta&Contradicta

19quarta-feira,
iBreviary
Poderiam perguntar.
É o iBreviary! O Breviário católico para iPhone.
Com três semanas de existência 8000 downloads.
11terça-feira,
Oração

ó Deus do Amor, de quem provém todo o amor no céu e na terra;
Tu, que nada poupaste, mas tudo entregaste em amor;
Tu que és meu amor,
de modo que o que ama só é aquilo que é por permanecer em Ti!
Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido,
Tu que revelaste o que é o amor;
Tu, nosso salvador e reconciliador,
que desde a Ti mesmo para libertar a todos!
Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido,
Espírito de Amor, que não reclamas nada do que é próprio Teu,
mas recordas aquele sacrifício do Amor,
recordas ao crente que deve amar como ele é amado,
e amar ao próximo como a si mesmo!
Ó, Amor Eterno,
Tu que estás presente em toda parte
e nunca deixas sem testemunho quando Te invocam,
não deixa sem testemunho aquilo que aqui deve ser dito sobre o amor,
ou sobre as obras do amor.
pois decerto há poucas obras que a linguagem humana,
específica e mesquinhamente, denomina obras de amor;
mas no Céu é diferente,
aí nenhuma obra pode agradar se não fou uma obra de amor:
sincera na abnegação,
uma necessidade do amor,
e justamente por isso sem a pretensão de ser meritória!
Soren kierkgaard (1813-1855)
Do livro As obras do Amor
4terça-feira,
Missa tridentina em BH
3segunda-feira,
Salmo 62
“Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!
Desde a aurora ansioso vos busco!
A minh’alma tem sede de vós,
Minha carne também vos deseja,
Como terra sedenta e sem água!”
2domingo,
À Eternidade

"Porque é indubitável que o tempo desta vida não é mais que um instante, que o estado da morte é eterno, seja qual for a sua natureza, e que assim todas as nossas ações e pensamentos devem tomar caminhos tão diferentes segundo o estado dessa eternidade que é impossível tomar uma atitude com senso e juízo sem pautá-la por esse ponto de vista que deve ser nosso último objetivo"
31sexta-feira,
Arquivos de Pio XII/ Hawking e Bento XVI
- Bento XVI encontrou essa sexta-feira com o físico Stephen Hawking. O encontro se deu devido ao evento, intitulado "Compreensões Científicas para Evolução do Universo e da Vida" promovido pela Academia Pontifícia de Ciências.
28terça-feira,
Há 50 anos: João XXIII

Roncalli fez um papado, como todos os que se seguiram antes dele, marcado pelo signo da contradição em tentar "modernizar" a Igreja ao mesmo tempo em que visa "defender" o patrimônio da fé. Algumas atitudes curiosas:
- ao assumir a cátedra de Pedro, mantém a mesma estrutura curial de Pio XII, para alguns analistas o último papado "ultramontano"
- no mesmo ano em que convoca um concílio permeado de preocupações ecumênicas, promulga a encíclica Ad Petri Cathedram, na qual se nota um tom antimoderno com a preocupação de apontar os erros do mundo
- um ano depois de criar o Secretariado para a união dos Cristãos, presedido pelo cardeal Augstin Bea, em 1960, promulga a encíclica Aeterna Dei Sapientia, marcando posição frente aos ortodoxos; posição que já parecia superada.
- no mesmo ano, de seu pontificado, emanam medidas disciplinares contra padres do Instituto Bíblico e documento contra as obras de Teilhard de Chardin
- em fevereiro de 1962 publica a Constituição Apostólica Veterum Sapientia, na qual defende o latim como língua da Igreja
A tese defendida por muitos, em vista das "contradições" de Roncalli, é que ele, velho e cansado, era joguete fácil nas mãos daqueles que desejavam influenciar no concílio, além de não ser bem informado sobre as diversas consequências advindas de alguns de seus gestos. Bem, penso que nunca saberemos em detalhes o que passava pela cabeça do "papa bom". O que sabemos é que sua presença à frente da Igreja marcou sua história indelevelmente.
Sobre as repercussões dos 50 anos da subida ao trono papal de João XXIII confira aqui, aqui e aqui.
27segunda-feira,
24sexta-feira,
22quarta-feira,
Opera Omnia de Ratzinger
Novo livro de Messori

21terça-feira,
Fé e Conhecimento no ZENIT II
15quarta-feira,
Bento XVI, o Sínodo e a exegese

- Ontem, na décima quarta congregação geral do Sínodo dos Bispos, o papa Bento XVI interveio. Tal intervenção remete ao documento da Pontifícia Comissão Bíblica de 1993, que estava sob sua própria direção. O papa Ratinzer chamou atenção para os riscos de uma exegese exclusivamente histórico-crítico. Segundo o papa, tal método ajuda a enterdermos que o texto das Sagradas Escrituras não é mitologia, mas história. Contudo, continua, não podemos pensá-las apenas como um livro que guarda fatos históricos passados. Se ficamos assim caímos no risco de exegese puramente secularista, marcadamente em alta nos estudos na Alemanha, que nega a ressurreição e a fundação da eucaristia. Daí sua chamada: a exegese não pode se separar da teologia.
- Rodari, em seu blog, diz que o cardeal Marc Quellet, arcebispode Québec, propôs que fosse pedido ao papa que escrevesse uma encíclica sobre a interpretação da Bíblia. A ocasião seria propicia. Contudo, é outro texto papal que parece na iminência de ser lançado: o segundo volumen de Jesus de Nazaré.
- Uma instrução sobre a aplicação do moto proprio Summorum Pontificum está pronta. Pelo que indica Bruno Volpe, o documento sairá em janeiro próximo.
14terça-feira,
A reforma de Bento XVI

Estatísticas sobre João Paulo II
10sexta-feira,
À busca do infinito

Os homens recusam-se a despertar para a vida espiritual. Realizam uma espécie de trabalho forçado...
Tempo de publicidade, de regimes totalitários e de exércitos sem clarins e bandeiras, sem missas pelos mortos...
Abomino intensamente a realidade...
Só existe um problema no mundo, um único apenas. Restituir aos homens o significado espiritual de suas inquietações.
Fazer chover sobre eles algo que se assemelhe a um canto gregoriano. Se tivesse fé, certamente passada está época de provação, necessária e ingrata, não suportaria outra coisa senão Solemes.
... Toda a agitação dos últimos tempos só tem duas fontes: a precariedade dos sistemas econômicos e o desespero espiritual...
A solução se resume em fazer que o homem redescubra que existe uma vida espiritual, mais alta que a vida intelectual; única capaz de satisfazer os anseios do homem...
Eis o problema fundamental: o homem sabe o sentido da vida e não procura a resposta.
Antoine de Saint-Exupery
9quinta-feira,
Encíclica social de Ratzinger
Pio XII e o concílio

Em comemoração dos cinquenta anos da morte do papa Pio XII escrevo artigo sobre as relações do papado de Pacelli e o futuro Concílio Vaticano II.
A homilia de Bento XVI em ocasião da data pode ser lida em italiano aqui.
Pio XII e o concílio: uma necessária compreensão
Há cinqüenta anos, exatamente em 9 de outubro de 1958, morria Eugenio Pacelli, o papa Pio XII. Seu papado, não raramente, é julgado como um papado reacionário e conservador, como o último no qual ainda se fazia prevalente a noção de uma Igreja intransigente e não muito propícia ao diálogo com o mundo. Pio XII seria aquele último papa “ultramontano”, até mesmo interpretado de maneira antagônica à Igreja que surgiria com João XXIII e o maior evento da história da Igreja do século XX, o Concílio Vaticano II (1962-1965).
A noção de que o concílio “rompeu” com o passado é uma idéia recorrente. Essa imagem do Vaticano II é baseada em um juízo sobre o que significou o concílio no seio da Igreja. De fato, o evento conciliar foi um momento de profundas discussões sobre os rumos que a Igreja necessariamente deveria tomar para que a mensagem evangélica se tornasse mais clara para os homens modernos. Com o objetivo de ser um concílio “pastoral”, João XXIII quis dar o tom dialogal com o mundo, sem buscar promulgações de novos dogmas e condenações.
Visando um aggiornamento (atualização) das práticas e formas de se levar o Evangelho aos povos, o concílio pensou novas formas de apresentar o “depósito da fé” aos homens de seu tempo, como diz o próprio João XXIII no seu famoso discurso de abertura. De uma Igreja marcada pela referência à sua estrutura hierárquica, baseada na noção de societas perfecta do século XIX, aparece uma outra parte de seu rosto, uma Igreja de comunhão, uma Igreja “corpo místico de Cristo”, que está para além de suas estruturas. De uma Igreja concentrada na figura do papa, herdeira do Concílio Vaticano I (1869-1870) com seu dogma da infalibilidade papal, sai das sombras a Igreja da colegialidade, onde os bispos, cum Petro e sub Petro, são contemplados em sua importante missão pelo destino da Igreja universal.
Muitas são as mudanças, que seriam impossíveis de serem abordadas em um espaço de poucas linhas. O que interessa aqui é frisar que a nova forma da Igreja ver ela mesma não surge do nada, não cái pronta do céu, mas que num período anterior à realização do concílio, vai se desenvolvendo lentamente. E compreender melhor os significados do pontificado de Pio XII, o anterior ao de João XXIII e seu concílio, é também entender de melhor maneira os significados profundos da doutrina do Vaticano II. Pacelli não foi apenas aquele papa que condenava as novas tendências, como querem caricaturá-lo recorridamente. De fato, o tom antimoderno prevaleceu em muitos de seus documentos e atos, como por exemplo na encíclica Humani generis (1950), na qual dispara contra a Nouvelle Theologie. Contudo, seu reinado não se resumiu a este tom. Como todos os papados do século XX, o pontificado de Pio XII foi marcado por passos à frente e passos atrás, surgimento de esperanças, recusa do que colocaria em risco a doutrina.
Não é possível interpretar o concílio eximindo de uma leitura histórica anterior a sua própria realização. Assim, podemos citar três encíclicas fundamentais que marcaram o reinado de Pacelli e que aplainaram o caminho para as futuras discussões no evento conciliar: Divino Afflante Spiritu (1943), sobre os estudos bíblicos, Mystici Corporis Christi (1943), sobre o Corpo Místico de Cristo e Mediator Dei (1947), sobre a liturgia. A partir desses documentos, Pio XII aponta novas perspectivas e avança no diálogo com o mundo.
A partir dessas premissas, considerar o Vaticano II como um evento que irrompe na história sem apreender o fluxo histórico que leva à sua concretização é amputá-lo de seus significados mais profundos. Compreender o concílio exige uma compreensão mais profunda da atuação de Pacelli. Assim, muitos estudiosos e historiadores se voltam atualmente para apreender o significado histórico de Pio XII para o Concílio Vaticano II (Confira em www.comitatopapapacelli.org). Nesse ano comemorativo dos cinqüenta anos de seu falecimento o Conselho Pontifício de Ciências Históricas nas universidades pontifícias Gregoriana e Lateranense realizam um congresso sobre o magistério desse papa entre 6 e 8 de novembro. Além desse evento, será organizada uma exposição fotográfica com o título “Pio XII: o homem e o pontificado”, de 21 de outubro de
8quarta-feira,
Fé e conhecimento no ZENIT
Rabino causa embaraço em Roma
2quinta-feira,
Fé e conhecimento

30terça-feira,
Bento XVI e Sarkozy

A “laicidade positiva”: um caso de enamoramento
Mais de uma vez tratei nessa coluna do tema da liberdade e da laicidade. Temas de importância profunda para as relações humanas e para a organização dos estados de direito, são assuntos que trazem em si carga imperativa sempre atual. É no âmbito da Igreja e suas relações que novamente ressoa o sinal. A viagem de Bento XVI à França foi marcada indelevelmente com o sinal da discussão sobre a laicidade. Mesmo antes de Ratzinger pisar pela primeira vez no país como papa muito já se falava sobre a questão das relações da Igreja e Estado, especialmente no caso o francês, nesse nosso tempo que alguns já denominam de “pós-secular”.
O presidente da França, Nicholas Sarkozy, já dava sinais, desde que foi eleito, que vinham em encontro ao pensamento do papa. Entretanto, o momento central e que já entrou para a história do século XXI foi o discurso de Sarkozy em 20 de dezembro de 2007, quando, na Basílica de São João de Latrão, demonstrou o que pensa sobre as relações da religião e o Estado. A principal noção defendida por Sarkozy é a de “laicidade positiva”, uma noção que, em primeiro lugar, se calca na idéia de que para haver uma, poderíamos dizer, “boa” e “fecunda” laicidade, não é necessário, ao contrário, imprudente seria, desejar eliminar as raízes cristãs que constituíram a história daquele país. Assim, ao contrário de análises superficiais que se multiplicam indiscriminadamente, Sarkozy não visa religar novamente o Estado francês à religião católica. O presidente afirmou que “ninguém contesta que o regime francês da laicidade é hoje uma garantia de liberdade: liberdade de crer ou de não crer, liberdade de praticar uma religião e liberdade de mudar, liberdade de não ser ferido em sua consciência por práticas ostensivas, liberdade para os pais de dar aos filhos uma educação conforme suas crenças, liberdade de não ser discriminado pela administração em função de sua crença”. Além disso, afirmou que “a laicidade não deveria ser a negação do passado. Não tem o poder de tirar a França de suas raízes cristãs. Tentou fazê-lo. Não deveria.” E concluiu: “como Bento XVI, considero que uma nação que ignora a herança ética, espiritual, religiosa de sua história comete um crime contra a sua cultura, contra o conjunto de sua história, de patrimônio, de arte e de tradições populares que impregna a tão profunda maneira de viver e pensar. Arrancar a raiz é perder o sentido, é debilitar o fundamento da identidade nacional, e secar ainda mais as relações sociais que tanta necessidade têm de símbolos de memória. Por este motivo, temos de ter juntos os dois extremos da corrente: assumir as raízes cristãs da França, valorizá-las, defendendo a laicidade finalmente amadurecida. Este é o passo que eu quis dar nesta tarde
De fato, a laicidade francesa nasceu de uma revolta anteriormente perpetrada contra qualquer símbolo que pudesse lembrar o período do Antigo Regime, assinalado pela forte presença da Igreja e sua ligação quase carnal com o Estado francês, chamado então de galicanismo. A Revolução Francesa de 1789 teve como um de seus objetivos eliminar totalmente a presença da Igreja Católica em seu território, e a partir de um novo culto ao Ser Supremo e a Razão extinguir de uma vez para sempre a presença de Deus na sociedade, o que os antigos estóicos chamariam de apostrophe, ou seja, a renúncia ao plano transcendental e divino. Tal ânsia descristianizadora foi uma constante no país e, para muitos, inclusive Sarkozy, deixou as portas abertas para a entrada de outras religiões estranhas à história cultural francesa, principalmente o islamismo. Alguns estudiosos especulam que o presidente francês e o papa Bento XVI são partidários da famosa teoria do “choque das civilizações” de Samuel Huntington. Tal teoria defende que a fonte principal de conflitos no novo milênio será cultural, e não mais econômica ou ideológica. Dessa forma, uma das principais maneiras de se proteger é valorizando a própria história e as raízes culturais de seu país.
Ao discursar no Palácio do Eliseu no último dia 12 em decorrência da presença do papa na França, Sarkozy repetiu novamente sua tese e defendeu veementemente à laicidade positiva. Bento XVI, por seu turno, olhava-o e ouvia-o atentamente. Ao afirmar que o pensamento cristão não fala somente de Deus, mas também do homem, notava-se
Guardini e o homem

29segunda-feira,
Pio XII e os judeus
26sexta-feira,
Debate sobre a crise do marxismo
23terça-feira,
Editores católicos e tentação mundana
22segunda-feira,
Nova Instrução sobre educação
21domingo,
Bento XVI e o avanço da razão
Artigo de Nicholas Bonnal nos fala "De la superioritè intellectualle de Benôit XVI"
18quinta-feira,
Congresso Anti-islamização causa polêmica
Pio XII restabelecido

Fala o "peregrino do absoluto"

Léon Bloy (1846-1917), o autodenominado "peregrino do absoluto"
Aqui, umas poucas palavras do grande escritor
17quarta-feira,
Quaerere Deum

Aqui, no final da página, um artigo do Patriarca de Veneza, Angelo Scola, sobre os 150 anos de ordenação sacerdotal de Pio X.
Site sobre Giuseppe Siri

16terça-feira,
Bispos dificultam implementação de moto proprio
14domingo,
12sexta-feira,
Em França: Últimas palavras de Bento XVI sobre o Summorum pontificum

11quinta-feira,
"A Igreja da França em vias de extinção?" Aqui alguns sociólogos discutem a questão.
Para Yves Thréard, em seu blog no Le Figaro, o debate em torno da laicidade é interessante, contudo não prioritário e muito menos necessário. Para Thréard a França tem raízes cristãs sim e deve assumí-las. Contudo, ela não é incompatível com um humanismo sem referência divina. Ok, mas cá pra nós, humanismo sem Deus é manco, pois dilacera o indivíduo de sua constituição mais íntima: a busca do Todo. Não que sou a favor de uma Igreja ligada ao Estado, mas até que ponto o Estado democrático deve também virar as costas a uma tradição milenar, que foi a base de sua própria constituição?
Liberdade religiosa e cristianismo

A liberdade sempre foi um tema forte no pensamento da Igreja. Em seus primórdios, o cristianismo fora perseguido devido as suas exigências de liberdade de consciência frente à imposição das formas diversas de paganismo pelo Império Romano. O cristianismo, com seu “daí a Cesar o que é de César”, abalava as estruturas culturais e políticas romanas e abria espaço para a dita laicização da esfera pública.
A certidão de cidadania no Império incluía obrigatoriamente uma dimensão religiosa. “Ser cidadão”, e assim usufruir do direito romano, abrangia forçosamente um aspecto religioso, que compelia o indivíduo às práticas pagãs, que por sua vez, serviam como amálgama ao grande império que já demonstrava sinais de declínio. Em vistas desses sinais, e de uma política de perseguição que não produzia os resultados desejados, mas ao contrário, fazia mais pessoas se converterem ao cristianismo, Constantino no início do século IV, com o famoso Edito de Milão, declarava que os cristãos, a partir de então, poderiam professar sua fé, tendo assim igualdade de direitos com as outras religiões. Era assegurada a liberdade religiosa. Com vistas em assegurar a permanência histórica do Império, alguns imperadores passam a ver no cristianismo a sua principal e última cartada. Começam a cercear sempre mais os cultos pagãos, chegando mesmo à sua proibição pública por Teodósio em
A dinâmica histórica ocidental, tanto na Europa quanto na América Latina colonial, de vários séculos seria marcada por essas relações, chegando mesmo, em alguns momentos, a Igreja ser simplesmente um braço espiritual de um poder secular, tendo seus bispos nomeados pelo poder político e até mesmo escolhendo este ou aquele como papa. Pertencer à comunidade de fé cristã era garantir seu reconhecimento também como pertencente da comunidade política. Era ter sua garantia existencial, na qual transcendia os espaços terrenos em vista do Reino futuro. Dessa forma, questionar as verdades da fé era grave delito que poderia levar a desestabilização da própria ordem política, calcada sob a égide da fé.
Contudo, as circunstâncias que levam a essa conjuntura passam a sofrer seus maiores abalos no século XVIII e XIX. A Igreja, questionada em seus dogmas a partir da ciência iluminista e nas suas relações com o poder temporal pelos valores revolucionários franceses de 1789 que buscavam o constitucionalismo liberal, passa a ser o alvo principal de ataque. Muitos a vêem como a principal representante que sobrevive daquele mundo demarcado em estamentos rígidos e cheios de privilégios chamado pelos historiadores de Antigo Regime.
Abalada pelas exigências de liberdade e questionada em sua autoridade máxima, o papado, a Igreja do século XIX opta por uma estratégia de recusa e enclausuramento. A defesa, pelo pensamento político liberal, de uma laicidade, isto é, separação do Estado da religião, confundia-se com um laicismo agressivo, que negava qualquer voz provinda dos círculos religiosos, especialmente na Europa Ocidental. Frente aos ataques que partiam de todos os lados, a Igreja recua ainda mais e, como “fortaleza sitiada”, deseja continuar desenvolvendo sua missão na terra sem as influências do mundo moderno. Essa recusa pode ser notada claramente no famoso documento papal Syllabus Errorum Modernorum (Silabo dos Erros Modernos). Este documento refletia o esquivar-se da Igreja em aceitar que o Estado, baseado agora no liberalismo político, não mais a subsidiasse e, por fim, declarasse a laicidade estatal.
Porém, migrando lentamente durante a primeira metade do século XX de um pensamento que desejava um reforço dos laços entre ela e o Estado a um pensamento que via na separação das esferas e na liberdade de consciência, baseado em garantias constitucionais, um ganho para o homem e seus direitos e mesmo para sua atuação evangélica, a Igreja chega a assumir sua defesa juridicamente com o Concílio Vaticano II. Com o maior concílio da história do cristianismo, e sua famosa Declaração Dignitatis Humanae, a Igreja se compreendeu como um baluarte da liberdade de consciência, da liberdade religiosa, e assim sendo, dos direitos humanos.
Nunca é demais lembrar essa fecunda declaração em um momento no qual alguns grupos desejam limitar a religião ao espaço privado, sem permiti-la trazer sua contribuição calcada em séculos de história: “o cuidado pelo direito à liberdade religiosa pertence tanto aos cidadãos quanto aos grupos sociais, tanto aos poderes civis quanto à Igreja e às demais comunidades religiosas, cada qual ao seu modo [...]” (DH, 1549).
10quarta-feira,
Benoît XVI em França: um blog de La Croix
9terça-feira,
Bento XVI na França
7domingo,
Hitchcock católico?

Livro sobre Bento XVI

3quarta-feira,
Rápidas
- Na sessão Lectures do The Catholic Herald encontra-se belo texto do cardeal Walter Kasper sobre sobre John Henry Newman.
- Saiu um segundo volume das memórias do controvertido teólogo Hans Küng,e por sinal, bem caro (Disputed Truth: Memoirs Volume II, Continuum £30). Como se sucede com todos os teólogos "dissidentes", depois do "cala-te boca" vindo de Roma, Küng tornou-se mais influente e conhecido. Pra ver o "nível" de polêmica pelo qual Küng caminha aí vai uma citação: "the ominous Opus Dei ... this Fascist-type Catholic secret organisation". Sobre Ratzinger como prefeito para a Congragação da Doutrina da Fé exclama: "a technique of insinuation and a polemic of defamation which hardly allows him to recognise the truth of another position". É o espírito anti-romano, como diria von Balthasar, que perpassa a obra de Küng.
Nova edição de Ortodoxia de Chesterton

1segunda-feira,
Pondé na escuridão
Na escuridão
SOU PROFESSOR , entro em sala todos os dias. Minha impressão básica é que o que falta muitas vezes na sala de aula é falarmos "a verdade". Apesar de ser um cético em quase tudo, acredito que há uma milagrosa relação entre o ser humano e "a verdade" quando ele percebe que ela é dita sem medo.
Uma grande traição feita aos mais jovens é atolá-los em "teorias a serviço da emancipação". Eu não quero emancipar ninguém porque para isso teria que mentir. Mentimos para sobreviver, isso é normal e civilizado, mas na sala de aula é uma traição.
Calma, caro leitor! Sei que "cada um é cada um". Uma afirmação forte como essa, "a verdade", pode me custar muitos amigos. Nunca mais jantares inteligentes. Hoje em dia você aprende no jardim da infância que "tudo é relativo", "a verdade" não existe, e todos os males do mundo são fruto do patriarcalismo e da Igreja Católica. Caricaturas ridículas da história são feitas a serviço da "liberdade"! Palavra já banal, quase idiota.
Existem também as palavras de ordem que devem ser ditas em meio às taças de vinho. Vejamos algumas delas: sou a favor do aborto, do casamento gay, da comercialização de fetos abortados (não! Essa ainda não é comum...) e não existe pecado. Qualquer coisa diferente, e de novo a ameaça: não te convido mais para jantar em casa. Não vou entrar no teor em si desses clichês e, falando sério, acho que há muito sofrimento verdadeiro nesses dramas humanos. Uma boa dose de auto-estima se faz necessária para não cairmos de joelhos diante desta "nova repressão". Toda fórmula para chegar à auto-estima é falsa, por isso resta-nos o sorriso da sorte ou da morte.
Quando falo "a verdade", me refiro a coisas mais simples do que debates filosóficos intermináveis sobre a natureza da verdade absoluta ou a existência de Deus. Refiro-me à luta cotidiana com nossa caótica condição humana e ainda termos que manter o bom humor e pagarmos as contas.
Refiro-me àquilo que gente como Ítalo Calvino chama de "dramas clássicos". O problema é que para ensinar isso, antes de tudo precisamos conhecer "isso" (coisa que vai ficando rara em meio ao blábláblá do relativismo cultural e da democracia no ensino). E pior, não podemos ter medo. Um dos dramas humilhantes do "otimismo moderno" é que para ser otimista temos que ser idiotas e negarmos os impasses assustadores da vida.
Explico-me: acho que os mais jovens agüentam ouvir "a verdade" mais do que professores de meia-idade. Esses professores já perceberam que a vida não é a bobagem das utopias de Maio de 68, tipo "sexo livre e é proibido proibir", mas se calam diante dessa dolorosa consciência...
27quarta-feira,
Aborto e anencéfalos
Aborto, "católicas pelo direito..." e Edir Macedo
Post de Reinaldo Azevedo em seu blog
Abaixo, no post das 4h55, há a notícia de que Marco Aurélio de Mello, ministro do Supremo, promoveu a primeira audiência pública sobre o aborto de fetos anencéfalos. Já apanhei bastante, inclusive de fãs do blog, por causa da minha opinião a respeito. É do jogo. Tenho leitores altivos, donos do seu nariz. Nem sempre seguem “o mestre”, como me chamam em tom irônico os adversários do blog — para me esculhambar, claro. Fosse eu outro, iria perscrutando as opiniões da maioria para, então, liderá-la. Sou quem sou. Se tiver de ficar sozinho, lá vou eu para o deserto. Mas, claro, há muitos que concordam comigo. E, desta feita, não vou nem entrar no mérito da questão.
Fiquei, com efeito, encantado com alguns representantes ditos “religiosos” na audiência pública. Dois, em particular, ofendem a inteligência, havendo uma, de pessoas favoráveis ou contrárias ao aborto de anencéfalos. No caso, falaram a favor.
Comecemos pelas tais “Católicas pelo Direito de Decidir”. Estarem estas senhoras representadas numa audiência pública é um ofensa à lógica e à religião. Ofende a lógica porque elas são militantes pró-aborto sem qualquer locução adjetiva. As ditas católicas não são favoráveis ao aborto de anéncéfalos apenas. Não! Elas são favoráveis ao aborto, qualquer um. De fetos com cérebro também. Para elas, um miolinho a mais, um a menos, tanto faz. Que lógica explica o convite? Não falam em nome dos católicos. Falam em nome de sua entidade.
Mas ofendem também a religião. Como podem se dizer católicas se renegam um princípio básico da religião? Quem as reconhece nessa condição? A ser assim, vamos fundar o “Islamismo pelo Direito de Decidir”. Ou o “Judaísmo pelo Direito de Decidir”. Ou o “Hinduísmo pelo Direito de Decidir”. Basta que a gente se diga pertencente a tal religião, e teremos, então, o status de uma dissidência. Mas “decidir” o quê? Ah, sei lá: no caso do hinduísmo, por exemplo, poderia ser “Pelo Direito de Decidir Consumir Carne de Vaca”. E militaríamos pelo direito de comer carne de porco em todas elas...
Ora, falta a essas senhores um mínimo, pequenino mesmo, senso de decoro. Por que não criam a sua ONG pró-aborto, tenha ela o nome que tiver, e não param de usurpar o nome do catolicismo para defender uma prática renegada por essa Igreja? Aliás, já passou da hora de a hierarquia católica brasileira declarar a excomunhão dessas senhoras — porque se auto-excomungaram. É um procedimento da religião que elas abraçaram. Ou sigam os preceitos ou caia fora. Felizmente, existe o direito de decidir não ser católico.
Igreja Universal do Reino de Deus
Quanto a Igreja Universal do Reino de Deus, dizer o quê? Vejam o trecho que cita o pastor para dizer que a Bíblia admite o aborto: “Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele".
Trata-se de uma referência estúpida, bucéfala, ignorante, rasteira ao Eclesiastes (6,3). É o que dá ouvir, na condição de “religião”, uma teologia mais jovem do que o uísque que eu bebo. Afirmar que há, no trecho, endosso ao aborto é pura delinqüência teológica e bíblica. O aborto é empregado apenas como um extremo da fealdade. Não há endosso. É o exato oposto. E de onde o pastor tirou essa pérola de interpretação? Das iluminações de autoproclamado "bispo" Edir Macedo, dono da seita.
Reproduzo, abaixo, trecho de um post que escrevi sobre este senhor no dia 13 de outubro de 2007:
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Há uma entrevista na Folha com Edir Macedo (...). Quem assina o texto é Daniel Castro, e quem responde pode ser uma “legião", já que foi feita por e-mail e intermediada pela cúpula, digamos assim, religiosa da seita. Há alguns dias, postei aqui um texto dizendo que o petismo é a Universal da política, e a Universal, o petismo da religião. Quem me dá razão é Macedo. Leiam uma pergunta e uma resposta:
FOLHA - Alguns políticos então da base da Igreja Universal, como o bispo Rodrigues, foram atingidos em cheio pelos escândalos do primeiro mandato de Lula. A corrupção não é um pecado imperdoável?
MACEDO - Jesus ensina que o único pecado imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito Santo. Para os demais, há perdão se houver arrependimento.
É a “igreja” de que o PT precisa. Se Deus censura a safadeza, os petistas podem ficar tranqüilos: o "deus" de Macedo perdoa. A sua “teologia” é bastante elástica pra isso. Tão elástica, que ele encontra uma justificativa teológica para o aborto. Se havia desconfianças sobre a filiação da tal Universal ao cristianismo, não há mais. Leiam:
“Sou favorável à descriminalização do aborto por muitas razões. Porém, aí vão algumas das mais importantes:
1) Muitas mulheres têm perdido a vida em clínicas de fundo de quintal. Se o aborto fosse legalizado, elas não correriam risco de morte;
2) O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades, sem infância, sem saúde, sem escola, sem alimentação e sem qualquer perspectiva de um futuro melhor? E o que dizer das comissionadas pelos traficantes de drogas?
3) A quem interessa uma multidão de crianças sem pais, sem amor e sem ninguém?
4) O que os que são contra o aborto têm feito pelas crianças abandonadas?
5) Por que a resistência ao planejamento familiar? Acredito, sim, que o aborto diminuiria em muito a violência no Brasil, haja vista não haver uma política séria voltada para a criançada.”
Trata-se de uma formidável coleção de asneiras, talvez ditadas pelo diabo. Se Macedo acredita até mesmo na remissão do corrupto, por que não na das crianças que vivem nos lixões? Se opta pelo aborto como saída menos dolorosa, por que não por outras práticas igualmente homicidas que trariam mais controle social? A Igreja Católica é contra o aborto e conta com milhares de entidades espalhadas mundo afora para cuidar de crianças abandonadas. E o que Macedo tem feito? Se o aborto diminuiria em muito a violência no Brasil, há de se supor que diminuiria também em muito o número de seus fiéis, não é mesmo?, já que é evidente que boa parte da força de sua “igreja” se concentra entre os miseráveis. Existe também lixão religioso no mundo.
Santo Edir Macedo! Seu "deus" perdoa corruptos, mas não perdoa os fetos!
Se for para ouvir esse tipo de formação "teológica", o Supremo poderia economizar tempo e dinheiro. Já sabemos qual será a decisão. O resto é só carnificina — também teórica.
25segunda-feira,
Pondé na Folha de S. Paulo

"Quem tem medo do macaco?
QUEM TEM medo de Darwin? A religião, dirão os mais apressados. E com razão, se pensarmos na obsessão do debate Deus versus Dawkins.
A verdade é que na universidade esse problema é menor e esconde uma briga muito mais feroz. A briga com a teologia é menos significativa por duas razões básicas. A primeira razão é que o darwinismo é materialista como as ciências "duras" enquanto a teologia não é, e por isso ela toma de dez a zero.
A segunda razão é que a teologia é a louca da casa (vive de favor na universidade, não é ciência nem filosofia), relegada ao lugar de vender Jesus como um bom parceiro em lutas sociais ou um bom amigo quando você está deprimido, por culpa dos próprios teólogos que barateiam Deus. Com exceção da medicina, nenhuma "ciência" deveria se comprometer com a felicidade porque ela sempre fica boba quando faz isso. Explico-me: ou a teologia rompe com a "felicidade" ou ela será sempre ridícula.
A briga séria é entre o darwinismo e as teorias que negam qualquer influência biológica definitiva no comportamento humano. Existe um pânico contra a psicologia evolucionista e o macaco no homem e a macaca na mulher. E como a universidade funciona em lobbies, com perseguições e inquisições, facilmente você pode calar alguém se ele ou ela não concordar com você. A universidade é um dos lugares menos democráticos do planeta.
Essas teorias que temem o macaco afirmam que tudo no humano é socialmente construído. Obviamente essas teorias acham que salvarão o mundo, construindo seres humanos livres de seus instintos indesejáveis. Dizem elas: dê uma boneca cor de rosa pra meninos e eles crescerão pensando que são Cinderela. Se a boneca for um bebê, o menino terá desejos de amamentar bebês. Se ensinarmos as meninas a bater nos outros, elas serão como Clint Eastwood [...]"