Albert Camus e o nada


Albert Camus! O grande escritor da obra, para mim das mais importantes do seculo XX, "O homem revoltado", volta à baila com trechos de uma peça teatral intitulada "O improviso dos filósofos", na qual constróia uma crítica voraz ao pai do existencialismo Jean Paul Sartre. Leia o trecho abaixo publicado na Mais! da Folha de S. Paulo:


O mercador da nova doutrina


SR. NÉANT
- A bem dizer, não tenho exatamente uma profissão, tendo consagrado minha vida às coisas do espírito e nada sabendo fazer com as mãos. Mas há algum tempo, e por pura vocação, quis arrumar um ofício. Tornei-me mercador da nova doutrina.
SR. VIGNE - Isso é muito bom, meu senhor, e eu o felicito. Mas, suplico-lhe, o que é isso?
SR. NÉANT - Isso o quê?
SR. VIGNE - Um mercador da nova doutrina?
SR. NÉANT - É o ofício que me traz até aqui.
SR. VIGNE - Nesse caso, senhor, é o melhor dos ofícios e merece meus aplausos.
SR. NÉANT - Nunca duvidei de sua aprovação e por isso vim vê-lo. Pois aquilo que tenho a dizer não posso dizê-lo a todo mundo e escolhi, para expor as finas mercadorias de que disponho, homens como o senhor, que devem sua primazia ao caráter, aos costumes e ao gênio.
SR. VIGNE - É verdade que tenho verniz mundano e algumas conjecturas sobre as coisas do espírito, mas não sabia que minha modesta reputação tivesse chegado até o senhor.
SR. NÉANT - O fato é que chegou até Paris e seus trabalhos são conhecidos por lá.
SR. VIGNE - Meus trabalhos! Mas não me recordo de tê-los publicado.
SR. NÉANT - É verdade; entretanto, nós o conhecemos, e a melhor prova é que aqui estou.
SR. VIGNE - É preciso crer no que diz, com efeito, pois essa prova é irrefutável. Mas continue, sou todo ouvidos e já começo a sentir certa afeição pelo senhor.
SR. NÉANT - Então estamos de acordo. Para falar brevemente, eis o caso: trago-lhe o que se faz de melhor em Paris em matéria de filosofia e pretendo lhe mostrar todas as vantagens dela.
SR. VIGNE (espantado e gaguejando de satisfação) - Uma honraria dessa, meu senhor, uma honraria dessa me faz sonhar. Acho que vou perder a fala.
SR. NÉANT - Não se inquiete. Posso muito bem falar sozinho. Entretanto, se o seu fôlego voltar, gostaria de começar por duas questões, e a primeira consiste em saber se o senhor é religioso.
SR. VIGNE - Tenho alguma noção, senhor, das verdades da fé católica, na qual meus pais me criaram.
SR. NÉANT - Isso significa que o senhor vive no erro, pela razão de que essa verdade se encontra hoje desmentida.
SR. VIGNE - E por quem?
SR. NÉANT - Por este livro aqui.
SR. VIGNE - E que livro é esse?
SR. NÉANT - O novo evangelho do qual eu sou apóstolo.
SR. VIGNE - O senhor me deixa espantado; não ouvi dizer que o mundo havia recebido a visita de um novo messias.
SR. NÉANT - Mas assim é. E, para a graça de todos nós, vários messias estão agora em Paris.
SR. VIGNE - Vários? Isso não é demais?
SR. NÉANT (severamente) - Nos tempos atuais, não poderíamos ter messias em excesso.
SR. VIGNE (afobado) - Sem dúvida, sem dúvida, o senhor tem razão. Mas confesso que sinto alguma dificuldade em pensar que a religião em que vivi até agora...
SR. NÉANT - Essa religião, em todo caso, não cabe mais para as pessoas que estão na moda em Paris.
SR. VIGNE - Ah! Senhor, o que está me dizendo! A gente de Paris é racional demais para pensar nisso tudo em vão. E sua conversa me abre tantos horizontes que eu quero logo responder a sua segunda questão.
SR. NÉANT - O senhor acredita que tudo nesse mundo tem uma causa?
SR. VIGNE - É isso que aprendemos no colégio em que fiz meus estudos.
SR. NÉANT - Eia! Isso reforça minha opinião de que seria preciso, para dar exemplo, esfolar vivos duas ou três dúzias de professores, pois os seus o fizeram viver até hoje na mentira.
SR. VIGNE - Espere aí! O que quer dizer?
SR. NÉANT - Quero dizer, senhor, que nada tem causa e que tudo é acaso.
SR. VIGNE - Então eu estou aqui, diante do senhor, prefeito desta cidade, farmacêutico oficial, pai de uma bela filha e tudo isso, em suma, sem uma razão? Como pode ser assim?
SR. NÉANT - É que este mundo é absurdo.
SR. VIGNE - E por que este mundo é absurdo?
SR. NÉANT - Pela simples razão de que ele não se explica.
SR. VIGNE - E como não?
SR. NÉANT - Porque é absurdo.
SR. VIGNE - Caramba, agora eu vejo as coisas claras e me explico claramente porque esse mundo não se explica.
SR. NÉANT - É a sua inteligência que merece todas as honras.
SR. VIGNE - Meu Deus, como essa filosofia me dá prazer! Sinto que vou adotá-la sem demora.

2 comentários:

Andrea disse...

hahahahahahaha...parece papo de maluco esse finalzinho do texto. Nossa! Interessante como esse pessoal quer negar a qualquer custo o sentido da existência, a causa de tudo existir. Eu não consigo entender como é que tem gente que realmente acredita nisso!

Abraço, Rodrigo!

Baccaro de Freitas disse...

Excelente texto, vou recomendá-lo.

Sr. Rodrigo, gostaria de saber se o senhor possui algum interesse em receber alguns livros - gratuitamente - de um famoso ex-tradicionalista (agora sedevacantista), o prof. Homero Johas. Seio que estudas "a direita católica", e acredito que conhecer esse tipo de vertente interpretativa é bastante oportuno para o senhor.

Grato, deixo o e-mail para contato:
aruanfreitas@yahoo.com.br