31terça-feira,
João Paulo II e o comunismo
30segunda-feira,
"Touche pas a mon pape!"
D. Laurent Ulrich comenta
Como o senhor explica esse mal-estar? Foram cometidos erros?
Efetivamente, observa-se um desconforto ligado a uma série de casos julgados incompreensíveis. No caso dos bispos integralistas, é verdade que as explicações tardaram em chegar. Mas o Papa reconheceu os erros de comunicação e deu-lhes uma explicação na sua carta aos bispos. Hoje, ninguém está protegido desse tipo de erros.
No Brasil, a posição do episcopado brasileiro, que contradizia o bispo que havia pronunciado a excomunhão, foi pouquíssimo publicada pela imprensa. Entendeu-se que a excomunhão não é mais efetiva? Nem o texto de dom Fisichella – presidente da Pontifícia Academia para a Vida – que expressava a sua compaixão pela menina não foi muito difundido. A Conferência dos Bispos da França não quis acrescentar outras coisas a um drama do qual não conhecia todos os elementos.
Sobre os preservativos, quando lemos o texto do papa nas nossas reuniões públicas, as pessoas se dão conta de que é um discurso equilibrado. Ele repete que não se resolverá o flagelo da Aids apenas com as campanhas em favor do preservativo. O apelo à fidelidade é compreendido. E foi acolhido favoravelmente na África, pelos bispos mas também por responsáveis civis e políticos. De tudo o que o Papa disse, foi colocada em evidência apenas uma meia frase...
Como os católicos se sentem hoje? O que a Igreja faz para remediar o desconforto?
Não se pode dizer que os cristãos franceses estão desmoralizados. Evidentemente, ouve-se um certo número de pessoas dizendo "Não me sinto bem na minha Igreja". Alguns escrevem para dizer que já estão saturados da Igreja. Muitas vezes, tratam-se de pessoas que já haviam se distanciado da Igreja.
E outros estão muito felizes por ter encontrado a mensagem do Evangelho. O número de batismos de adultos aumenta: passaram de 2.300 para 2.900 entre 2001 e 2009. As polêmicas não colocam em discussão as convicções daqueles que se comprometem. Certos padres estão perturbados, mas todos estão atentos para ajudar os cristãos a entender. Depois da tempestade, vem o momento do diálogo. Não deixamos o Papa sozinho nas dificuldades. Nós, católicos, mostramos a nossa ligação com a Igreja, com a sua mensagem e com o Papa, pois as suas palavras são palavras de razão. São palavras que contam, senão não fariam tanto barulho! Certamente nos provocam, a nós e à sociedade. A Igreja faz refletir.
Na Igreja, alguns também consideram que essas palavras são sempre menos compreensíveis pelas sociedades ocidentais...
Não acredito. A nossa linguagem não é inacessível. Requer escuta, reflexão, discussão e tempo. As nossas palavras não satisfazem sempre o pensamento dominante, mas isso não é novidade! Isso não significa que somos destinados a ser colocados de lado. É uma das vocações da Igreja dizer coisas que não confirmam o pensamento único. Nós não buscamos uma oposição frontal e polêmica, mas a nossa palavra é livre e não nos sentimos obrigados a justificar tudo. A Igreja tem um dever e um direito de contestação. Porém, os católicos não estão na contracultura: pelo contrário, estão comprometidos com a vida da sociedade.
É possível ser católico mesmo criticando o Papa?
O símbolo da unidade que o Papa representa pode se enfraquecer, mas a fé católica não pode viver a sua unidade sem a relação com o Papa. Pode haver irritações passageiras, refutações, mas a unidade da fé não pode ser colocada em discussão. Que certas pessoas estejam desorientadas é possível, mas estou convencido de que a sua fé é maior do que uma desorientação momentânea.
29domingo,
Bento não sabe o que faz?
27sexta-feira,
Reação dos israelitas a D. Dadeus
Nos surpreendem as declarações do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, publicadas pela revista Press. Não é a primeira vez que o religioso se refere ao Holocausto de forma distorcida. Nós, brasileiros de todas as origens, construímos através de décadas uma tradição de convivência pacífica harmoniosa. Afirmações como as de Dom Dadeus não contribuem em nada para este modelo que serve de inspiração a outros países. Reduzir ou relativizar o Holocausto agride a memória de milhões de mortos numa guerra iniciada pelo fanatismo e pela intolerância.
O próprio Vaticano, nos últimos anos, adotou uma postura aberta e transparente em relação ao assassinato de seis milhões de judeus. Aliás, as relações entre a Igreja Católica e a comunidade judaica nunca foram tão boas. Em maio, o Papa Bento XVI visitará Israel.
Na contramão dessa realidade, mais uma vez Dom Dadeus destoa dos seus semelhantes ao usar argumentos sem qualquer valor moral ou científico. Morreram menos judeus na II Guerra porque havia e ainda há menos judeus no mundo. Proporcionalmente, a chacina minimizada pelo arcebispo significou a aniquilação da maior parte de um povo que já era pequeno.
Manifestamos a esperança de que Dom Dadeus reflita sobre as suas declarações. Ele é um homem de fé e de paz. Esteve na posse da diretoria da Federação Israelita há poucos dias, o que muito honrou e sensibilizou a comunidade judaica gaúcha. Entretanto, ao reproduzir estereótipos criados pelos nazistas, Dom Dadeus se posiciona do lado errado da História. Suas declarações agridem não só aos judeus, mas aos milhões de ciganos, portadores de deficiência, homossexuais e adversários do regime nazista que foram igualmente assassinados.
A única forma de impedir que a barbárie perpetrada pelos nazistas se repita - contra os judeus ou contra outras etnias ou segmentos religiosos - é respeitar sempre a memória, com seriedade, fraternidade e honestidade. É isto o que esperamos de Dom Dadeus Grings e dos homens e mulheres comprometidos com a verdade e com a justiça.
Porto Alegre, 26 de março de 2009.
Henry S. Chmelnitsky
Presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul
Fonte: FIRS
26quinta-feira,
Jean Guitton: 10 anos de morte

Dr. Green concorda com Bento XVI
Santo Anselmo na Faculdade São Bento
Algumas reflexões
- O L'Avvenire publica texto de Riccardo Cascioli abordando o tema dos preservativos e defendendo a visão do papa.
- No L'Occidentale, Pietro di Marco escreve primoroso artigo sobre a contenda interpretativa do Vaticano II. Afirma: "a história católica precedente ao Concílio Vaticano II é o vital horizonte do 'espírito' do mesmo concílio e da sua realização - 'realização' que muitos extremistas viveram em vez como incompatibilidade com o passado [...] só um uso político do concílio, não a sua doutrina, rebaixou, sobre o pretexto da 'ruptura' conciliar [...] os séculos de vida, autêntica Tradição cuja os tradicionalistas católicos reclamam."
- O Wasington Post traz matéria no qual o arcebispo Raymond Burke diz que Obama "could be an agent of death", se der suporte financeiro aos abortistas em outros países.
- Mais uma polêmica: D. Dadeus Grings fala na revista Press que "judeus tem a propaganda no mundo" e que morreram mais católicos no Holocausto do que judeus.
25quarta-feira,
L'Osservatore fala sobre o preservativo
E em Paris, enquanto isso, o papa vira camisinha. Imagine se fosse Maomé estampado... O mundo viria abaixo!
Embriões e afins
Célula embrionária é para fazer bebês, diz neurocirurgião português | |
Carlos Lima diz que só se faz pesquisa com célula-tronco de embrião porque a adulta não rende patente Clarissa Thomé escreve para “O Estado de SP”: O neurocirurgião português Carlos Lima, do Hospital de Egas Moniz, em Lisboa, conhecido por aplicar desde 2001 uma técnica experimental de recuperação de lesão medular baseada no implante de células-tronco retiradas da mucosa olfativa, veio ao Brasil para uma conferência sobre o tema realizada ontem na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lima é um crítico das pesquisas com células embrionárias. Para ele, não se investe mais em células-tronco adultas porque não se pode patenteá-las. “Querem continuar a gastar tempo, dinheiro e energia, causando sofrimento ao paciente, por uma única razão: célula da mucosa olfativa não tem patente. Do ponto de vista financeiro, não traz benefício.” Desde o início da pesquisa, 125 pessoas foram operadas e tiveram diferentes graus de recuperação – uma delas, a carioca Camila Magalhães Lima, de 23 anos, tetraplégica desde os 12 por causa de bala perdida. Camila foi operada por ele em 2006 e diz ter recuperado parte da sensibilidade nos pés e nas costas, além de conseguir dar alguns passos com ajuda de equipamentos. A seguir, trechos da entrevista. O que deve ser feito após o implante das células-tronco? Como o senhor analisa o estudo com células-tronco embrionárias? O que está na agenda? Casos como o da Camila surpreendem o senhor? |
Os rebeldes e os tiranos
24terça-feira,
Coutinho aponta a "grosseria" de Marcos Nobre
Parece que outro articulista da Folha, João Pereira Coutinho não concorda com Marcos Nobre. E dá resposta a ele no mesmo dia, sem saber, penso, de seu texto: "Tenho uma amiga que não gosta do atual papa. Razões? Ela responde: 'Acho que ele é demasiado católico'. A primeira vez que ouvi a tese, chorei de rir. Mas chorei com respeito. A tese expressa, com rigor e humor, o espírito do tempo sempre que o papa resolve ser papa." Depois: "a Igreja Católica, com total legitimidade, tem uma particular doutrina sobre a sexualidade humana, onde a abstinência (antes do casamento) e a fidelidade (depois do casamento) constituem-se como valores centrais. Centrais e absolutamente lógicos. Não é preciso ser católico para comprovar a eficácia do método. Basta usar a cabeça, caso exista uma: se os seres humanos fossem capazes de trilhar a visão de perfeição proposta pelo papa, a possibilidade de contágio seria nula, ou quase. Acusar o papa de espalhar a Aids na África não é apenas insulto grosseiro; é irracionalismo grosseiro. Se as pessoas seguissem a doutrina da Igreja em matéria sexual, não haveria Aids no mundo."
O dissenso na Igreja e a colegialidade
"Crises anteriores no pontificado de Bento XVI envolveram as relações entre a Igreja e as outras fés. Mas a crise precipitada pela revogação da excomunhão de quatro lefebvrianos fez com que os bispos católicos expressassem seu desejo de um tipo diferente de relação com o Vaticano.A despeito de uma carta aos bispos de todo o mundo que provocou imediatamente profissões de solidariedade, o Papa Bento XVI, me parece, é como um monarca solitário que está perdido na Cúria.A tempestade causada pela remissão das excomunhões contra os quatro bispos lefebvrianos pode parecer que tenha se acalmado, mas a crise que explodiu após a sequência de erros que o Papa Bento buscou explicar ainda não. Ele se tornou um pontificado de duas metades: antes da ruptura e depois dela. O período depois explicitou questões que se referem à liderança de Joseph Ratzinger, revelando, ao mesmo tempo, a tensão entre o governo central da Igreja e bispos importantes do hemisfério Norte.Lendo as entrelinhas da mensagem de solidariedade dos bispos ao Papa, existem pedidos para que ele mude o seu estilo de governo. A hierarquia alemã se professa encantada pelo Papa querer entrar "em diálogo com os bispos" (assinalando que até então isso não acontecera). Os bispos franceses destacam a necessidade do Vaticano de se tornar acostumado a um intercâmbio que é "rico e substancial", indicando que a relação entre o Papa e os bispos não deveria consistir simplesmente em ordens que vem de cima. Na Suíça, o bispo de Lugano, Pier Giacomo Grampa, expressou a esperança de que o estilo humilde e fraterno da carta de Bento XVI se torne o estilo adotado no governo cotidiano da Igreja.Mas foram os bispos austríacos que apresentaram a mensagem mais fortemente mordaz. A Igreja guiada por um de seus discípulos mais fiéis, o cardeal Christoph Schönborn, lembra ao Papa que ele não é a única pessoa que está sofrendo e que essa dor também foi sentida "por muitas igrejas locais e pelas pessoas de fora da Igreja".O problema central na Igreja hoje não é a existência de um partido anti-Ratzinger na Cúria. Pode haver cardeais que são mais ou menos entusiastas sobre a direção na qual o Papa está guiando a Igreja. Certamente, o secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone, não é considerado parte do aparato curial ou "um deles". No entanto, em geral, os chefes das congregações são bem alinhados e seguem as instruções papais fielmente. Centros de oposição ou dissenso não existem. O problema real parece ser a ausência de uma liderança inspirada por uma estratégia coerente que possa dar conta da cena geopolítica e da opinião pública dentro e fora da Igreja.Fez sentido revogar as excomunhões dos quatro bispos lefebvrianos – sem obter qualquer declaração de adesão fiel ao Concílio Vaticano II – no mesmo dia que marcava o 50º aniversário da decisão do Papa João XXIII de convocar o Concílio? Fez sentido insistir no perdão ao bispo negacionista Richard Williamson na mesma semana dedicada à memória da Shoah?MaAqui há um detalhe importante que deveria ser lembrado. O decreto do Vaticano de revogar as excomunhões foi publicado 48 horas depois que a história fosse divulgada pela primeira vez na imprensa. Imediatamente depois disso, a entrevista com o bispo Williamson para a televisão sueca foi publicada, na qual ele insistia que seis milhões de judeus não haviam morrido no Holocausto. Houve dois dias para que Bento XVI e seus assistentes tivessem uma ampla oportunidade de bloquear a publicação do decreto e evitar a necessidade de avisos, explicações e solicitações à Fraternidade de São Pio X, que surgiram do secretário de Estado só depois que a catástrofe havia acontecido. A generosidade com a qual o Papa, em sua carta, evitou culpar qualquer um de seus colaboradores – em primeiro lugar, o cardeal Castrillón Hoyos, presidente da Comissão Ecclesia Dei, encarregada de negociar com os lefebvrianos – não nega um fato: mesmo que ele tenha sido avisado pela imprensa mundial sobre a crise iminente, o Papa não considerou oportuno pedir um tempo e rever a decisão.Eu imediatamente pensei nos dias que se seguiram ao 12 de setembro de 2006, em Regensburgo. Muitas horas antes que Bento XVI apresentasse a sua conferência na universidade, citando as palavras anti-Islã de um longínquo imperador bizantino, um grupo de jornalistas (que receberam uma cópia do texto sob embargo às 7h daquele dia) já haviam avisado o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, que a declaração poderia causar problemas com os muçulmanos. Os jornalistas eram dos jornais La Repubblica, New York Times, Los Angeles Times e da Associated Press, assim como do canal de televisão italiano Channel 5. Ninguém pode duvidar que o Pe. Lombardi informou os seus superiores. Acima de tudo, sabe-se muito bem no Vaticano que o cardeal Angelo Sodano avisou o Papa do risco que ele estava assumindo com essa conferência. Mesmo assim, Bento XVI seguiu em frente, com a consequência de que ele teve que expressar muitas vezes o seu arrependimento aos representantes do Islã. O séquito do Papa tem uma máxima: "Não perturbe o motorista". Mas essa não é a forma de se guiar uma comunidade de 1,2 bilhão de fiéis. A carta do Papa Bento expressa uma grande sinceridade pessoal, mas também revela uma fraqueza. Falar de hostilidade dirigida contra o Papa, especialmente dentro dos círculos católicos, levanta algumas sérias questões. Isso sugere que ou Papa considera toda crítica como um ataque pessoal – e essa não deveria ser a reação de um líder que precisa compreender a complexidade envolvida no processo de governança – ou que existem muitas pessoas na Igreja que estão preocupadas com a direção que está sendo tomada pelo Papa.Essa é a primeira crise real da liderança do Papa. Nos últimos anos, as crises foram sempre fora da Igreja: relações com o Islã, relação com a comunidade judaica impacientes com relação às medidas para beatificar Pio XII. Mas desta vez a crise explodiu "dentro" da Igreja, e o fato que surge claramente é que os bispos denunciaram uma ausência de colegialidade no governo do Papa Bento.O Papa estava totalmente ciente de que a maioria dos membros do Colégio Cardinalício que se encontrou em Roma, em março de 2006, era da visão de que os seguidores da Fraternidade de São Pio X só poderiam retornar ao seio da Igreja se expressassem uma "adesão fiel ao Vaticano II". Mas ele preferiu não levar isso em consideração. Ao tomar a decisão de cancelar as excomunhões, ele não consultou nem os chefes dos dicastérios da Cúria, nem os bispos com um interesse particular. Ele não considerou isso importante nem necessário.Quando eu o entrevistei em novembro de 2004, apenas alguns meses antes do conclave em que foi eleito Papa, o então cardeal Ratzinger disse: "É crescentemente aparente que uma Igreja mundial, particularmente nesta situação presente, não pode ser governada por um monarca absoluto [...], em tempos em que um sentido deve ser encontrado para criar, de forma realista, uma profunda colaboração entre os bispos e o Papa, porque apenas dessa forma seremos capazes de responder aos desafios deste mundo".Bento XVI não fez nada para concretizar esse princípio. O caso referente aos lefebvrianos – como a decisão unilateral, em 2007, de restabelecer de forma permanente a missa pré-conciliar – trouxe à luz o coração da crise: o fracasso de implementar a colegialidade. O Papa João Paulo II também preferiu um exercício de poder que foi fortemente pessoal, mas, por trás de seu carisma, ele manteve um ouvido próximo da opinião pública mundial, teve um profundo sentido de história e a habilidade de realizar gestos que abriram novas perspectivas para a Igreja católica e para todo o cristianismo. Houve, por exemplo, o seu gesto de penitência pelos erros e pelos horrores cometidos pela Igreja ao longo dos séculos, a oração conjunta com os líderes de outras religiões mundiais, a celebração de laços únicos entre as fés abraâmicas – Judaísmo, Cristianismo, Islã – e a proposta final de uma consulta com os chefes das Igrejas cristãs para rever juntos o exercício do primado papal.Hoje, sem esses saltos para frente, o que fica é o problema nu de um exercício de poder que é autoritário e solitário, frente ao qual os bispos de todo o mundo estão aumentando suas demandas por colegialidade. O caso que se refere à nomeação do Pe. Gerhard Maria Wagner como bispo auxiliar de Linz se torna emblemático a esse respeito. Nunca havia acontecido que uma conferência nacional dos bispos se opusesse a uma nomeação papal e obrigasse o Papa a revogar a decisão. Porém, isso aconteceu na Áustria. E é um sinal de uma tensão subjacente que poderia facilmente pegar fogo. Da mesma forma, nunca havia acontecido que um arcebispo proclamasse uma excomunhão, validada posteriormente pelo Vaticano, e que os bispos de outro país protestassem contra a decisão ao ponto de que o jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, tivesse que criticar a excomunhão. Isso aconteceu com a excomunhão pronunciada no Brasil pelo arcebispo José Cardoso Sobrinho contra a mãe de uma menina de nove anos que permitiu que a sua filha tivesse um aborto depois que a menina havia sido estuprada e engravidasse. A reação violenta de um grande número de bispos na França contra a excomunhão criou uma dificuldade para o Vaticano.Verdadeiramente, sob a superfície do poder romano – assim como debaixo de um vulcão – pode-se ouvir estrondos abomináveis."
23segunda-feira,
"Notícias" e Bento XVI
Aqui, o presidente da CEI (Conferenza Episcopale Italiana) fala algumas palavras sobre os últimos acontecimentos.
Preconceito iluminista
Para os pró-aborto, a máxima iluminista "O mundo só terá paz quando o último rei for enforcado nas tripas do último papa" continua sendo um princípio político. Infelizmente, grande parte dos estudos "científicos" sobre a Igreja Católica sofre do mesmo preconceito banal.
Confirmar os irmãos na fé
Fazendo mais uma referência a "correta interpretação do Vaticano II", Bento XVI afirma que a importância da formação dos padres deve basear-se no encorajamento de 'correct reading of the texts of the Vatican Council, interpreted in the light of all the Church's doctrinal inheritance'. O papa, que não é nada bobo, também sabe que a interpretação com marca na ruptura está ligada intrinsecamente com a questão das gerações. Desaparecida a geração que viveu o Vaticano II no seu fervor primeiro, também marcado por certas ilusões e "forçação de barra" da herença de 1968, a hermenêutica da ruptura tornar-se-á marginal dentro do espectro das interpretações históricas que assumam a complexidade do evento em sua duração temporal.
21sábado,
Consciência e metanóia
20sexta-feira,
Não compreendo Hans Küng
17terça-feira,
João Paulo II beato em abril de 2010
Bento e confirmação da rota de reforma
16segunda-feira,
Küng e suas memórias
15domingo,
Rino Fisichella e o "caso de Alagoinha"
13sexta-feira,
Blogs na dianteira do anúncio
12quinta-feira,
Romano Amerio de novo nas livrarias

Betto e a "distribuição de excomunhões"
Coelho e sua estreiteza canônica
Carta de Bento XVI aos bispos sobre levantamento das excomunhões
CARTA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
a propósito da remissão da excomunhão
aos quatro Bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre
Amados Irmãos no ministério episcopal!
A remissão da excomunhão aos quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa Sé, por variadas razões suscitou, dentro e fora da Igreja Católica, uma discussão de tal veemência como desde há muito tempo não se tinha experiência. Muitos Bispos sentiram-se perplexos perante um facto que se verificou inesperadamente e era difícil de enquadrar positivamente nas questões e nas tarefas actuais da Igreja. Embora muitos Bispos e fiéis estivessem, em linha de princípio, dispostos a considerar positivamente a decisão do Papa pela reconciliação, contra isso levantava-se a questão acerca da conveniência de semelhante gesto quando comparado com as verdadeiras urgências duma vida de fé no nosso tempo. Ao contrário, alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atrás, para antes do Concílio: desencadeou-se assim um avalanche de protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais além do momento. Por isso senti-me impelido a dirigir-vos, amados Irmãos, uma palavra esclarecedora, que pretende ajudar a compreender as intenções que me guiaram a mim e aos órgãos competentes da Santa Sé ao dar este passo. Espero deste modo contribuir para a paz na Igreja.
Uma contrariedade que eu não podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto à remissão da excomunhão. O gesto discreto de misericórdia para com quatro Bispos, ordenados válida mas não legitimamente, de improviso apareceu como algo completamente diverso: como um desmentido da reconciliação entre cristãos e judeus e, consequentemente, como a revogação de quanto, nesta matéria, o Concílio tinha deixado claro para o caminho da Igreja. E assim o convite à reconciliação com um grupo eclesial implicado num processo de separação transformou-se no seu contrário: uma aparente inversão de marcha relativamente a todos os passos de reconciliação entre cristãos e judeus feitos a partir do Concílio – passos esses cuja adopção e promoção tinham sido, desde o início, um objectivo do meu trabalho teológico pessoal. O facto de que esta sobreposição de dois processos contrapostos se tenha verificado e que durante algum tempo tenha perturbado a paz entre cristãos e judeus e mesmo a paz no seio da Igreja, posso apenas deplorá-lo profundamente. Disseram-me que o acompanhar com atenção as notícias ao nosso alcance na internet teria permitido chegar tempestivamente ao conhecimento do problema. Fica-me a lição de que, para o futuro, na Santa Sé deveremos prestar mais atenção a esta fonte de notícias. Fiquei triste pelo facto de inclusive católicos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste. Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equívoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confiança que, durante todo o período do meu pontificado – tal como no tempo do Papa João Paulo II –, existiu e, graças a Deus, continua a existir.
Outro erro, que lamento sinceramente, consiste no facto de não terem sido ilustrados de modo suficientemente claro, no momento da publicação, o alcance e os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. A excomunhão atinge pessoas, não instituições. Um ordenação episcopal sem o mandato pontifício significa o perigo de um cisma, porque põe em questão a unidade do colégio episcopal com o Papa. Por isso a Igreja tem de reagir com a punição mais severa, a excomunhão, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso à unidade. Passados vinte anos daquelas ordenações, tal objectivo infelizmente ainda não foi alcançado. A remissão da excomunhão tem em vista a mesma finalidade que pretende a punição: convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso. Este gesto tornara-se possível depois que os interessados exprimiram o seu reconhecimento, em linha de princípio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com reservas em matéria de obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio. E isto traz-me de volta à distinção entre pessoa e instituição. A remissão da excomunhão era um provimento no âmbito da disciplina eclesiástica: as pessoas ficavam libertas do peso de consciência constituído pela punição eclesiástica mais grave. É preciso distinguir este nível disciplinar do âmbito doutrinal. O facto de a Fraternidade São Pio X não possuir uma posição canónica na Igreja não se baseia, ao fim e ao cabo, em razões disciplinares mas doutrinais. Enquanto a Fraternidade não tiver uma posição canónica na Igreja, também os seus ministros não exercem ministérios legítimos na Igreja. Por conseguinte, é necessário distinguir o nível disciplinar, que diz respeito às pessoas enquanto tais, do nível doutrinal em que estão em questão o ministério e a instituição. Especificando uma vez mais: enquanto as questões relativas à doutrina não forem esclarecidas, a Fraternidade não possui qualquer estado canónico na Igreja, e os seus ministros – embora tenham sido libertos da punição eclesiástica – não exercem de modo legítimo qualquer ministério na Igreja.
À luz desta situação, é minha intenção unir, futuramente, a Comissão Pontifícia «Ecclesia Dei» – instituição competente desde 1988 para as comunidades e pessoas que, saídas da Fraternidade São Pio X ou de idênticas agregações, queiram voltar à plena comunhão com o Papa – à Congregação para a Doutrina da Fé. Deste modo torna-se claro que os problemas, que agora se devem tratar, são de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito sobretudo à aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas. Os organismos colegiais pelos quais a Congregação estuda as questões que se lhe apresentam (especialmente a habitual reunião dos Cardeais às quartas-feiras e a Plenária anual ou bienal) garantem o envolvimento dos Prefeitos de várias Congregações romanas e dos representantes do episcopado mundial nas decisões a tomar. Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio, deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore.
Dito isto, espero, amados Irmãos, que tenham ficado claros tanto o significado positivo como os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. Mas resta a questão: Tal provimento era necessário? Constituía verdadeiramente uma prioridade? Não há porventura coisas muito mais importantes? Certamente existem coisas mais importantes e mais urgentes. Penso ter evidenciado as prioridades do meu Pontificado nos discursos que pronunciei nos seus primórdios. Aquilo que disse então permanece inalteradamente a minha linha orientadora. A primeira prioridade para o Sucessor de Pedro foi fixada pelo Senhor, no Cenáculo, de maneira inequivocável: «Tu (…) confirma os teus irmãos» (Lc 22, 32). O próprio Pedro formulou, de um modo novo, esta prioridade na sua primeira Carta: «Estai sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar a razão da esperança que está em vós» (1 Ped 3, 15). No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. O verdadeiro problema neste momento da nossa história é que Deus possa desaparecer do horizonte dos homens e que, com o apagar-se da luz vinda de Deus, a humanidade seja surpreendida pela falta de orientação, cujos efeitos destrutivos se manifestam cada vez mais.
Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na Bíblia: tal é a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo. Segue-se daqui, como consequência lógica, que devemos ter a peito a unidade dos crentes. De facto, a sua desunião, a sua contraposição interna põe em dúvida a credibilidade do seu falar de Deus. Por isso, o esforço em prol do testemunho comum de fé dos cristãos – em prol do ecumenismo – está incluído na prioridade suprema. A isto vem juntar-se a necessidade de que todos aqueles que crêem em Deus procurem juntos a paz, tentem aproximar-se uns dos outros a fim de caminharem juntos – embora na diversidade das suas imagens de Deus – para a fonte da Luz: é isto o diálogo inter-religioso. Quem anuncia Deus como Amor levado «até ao extremo» deve dar testemunho do amor: dedicar-se com amor aos doentes, afastar o ódio e a inimizade, tal é a dimensão social da fé cristã, de que falei na Encíclica Deus caritas est.
Em conclusão, se o árduo empenho em prol da fé, da esperança e do amor no mundo constitui neste momento (e, de formas diversas, sempre) a verdadeira prioridade para a Igreja, então fazem parte dele também as pequenas e médias reconciliações. O facto que o gesto submisso duma mão estendida tenha dado origem a um grande rumor, transformando-se precisamente assim no contrário duma reconciliação é um dado que devemos registar. Mas eu pergunto agora: Verdadeiramente era e é errado ir, mesmo neste caso, ao encontro do irmão que «tem alguma coisa contra ti» (cf. Mt 5, 23s) e procurar a reconciliação? Não deve porventura a própria sociedade civil tentar prevenir as radicalizações e reintegrar os seus eventuais aderentes – na medida do possível – nas grandes forças que plasmam a vida social, para evitar a segregação deles com todas as suas consequências? Poderá ser totalmente errado o facto de se empenhar na dissolução de endurecimentos e de restrições, de modo a dar espaço a quanto nisso haja de positivo e de recuperável para o conjunto? Eu mesmo constatei, nos anos posteriores a 1988, como, graças ao seu regresso, se modificara o clima interno de comunidades antes separadas de Roma; como o regresso na grande e ampla Igreja comum fizera de tal modo superar posições unilaterais e abrandar inflexibilidades que depois resultaram forças positivas para o conjunto. Poderá deixar-nos totalmente indiferentes uma comunidade onde se encontram 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis? Verdadeiramente devemos com toda a tranquilidade deixá-los andar à deriva longe da Igreja? Penso, por exemplo, nos 491 sacerdotes: não podemos conhecer toda a trama das suas motivações; mas penso que não se teriam decidido pelo sacerdócio, se, a par de diversos elementos vesgos e combalidos, não tivesse havido o amor por Cristo e a vontade de anunciá-Lo e, com Ele, o Deus vivo. Poderemos nós simplesmente excluí-los, enquanto representantes de um grupo marginal radical, da busca da reconciliação e da unidade? E depois que será deles?
É certo que, desde há muito tempo e novamente nesta ocasião concreta, ouvimos da boca de representantes daquela comunidade muitas coisas dissonantes: sobranceria e presunção, fixação em pontos unilaterais, etc. Em abono da verdade, devo acrescentar que também recebi uma série de comoventes testemunhos de gratidão, nos quais se vislumbrava uma abertura dos corações. Mas não deveria a grande Igreja permitir-se também de ser generosa, ciente da concepção ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita? Não deveremos nós, como bons educadores, ser capazes também de não reparar em diversas coisas não boas e diligenciar por arrastar para fora de mesquinhices? E não deveremos porventura admitir que, em ambientes da Igreja, também surgiu qualquer dissonância? Às vezes fica-se com a impressão de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual não conceda qualquer tolerância, contra o qual seja possível tranquilamente arremeter-se com aversão. E se alguém ousa aproximar-se do mesmo – do Papa, neste caso – perde também o direito à tolerância e pode de igual modo ser tratado com aversão sem temor nem decência.
Amados Irmãos, nos dias em que me veio à mente escrever-vos esta carta, deu-se o caso de, no Seminário Romano, ter de interpretar e comentar o texto de Gal 5, 13-15. Notei com surpresa o carácter imediato com que estas frases nos falam do momento actual: «Não abuseis da liberdade como pretexto para viverdes segundo a carne; mas, pela caridade, colocai-vos ao serviço uns dos outros, porque toda a lei se resume nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente, tomai cuidado em não vos destruirdes uns aos outros». Sempre tive a propensão de considerar esta frase como um daqueles exageros retóricos que às vezes se encontram em São Paulo. E, sob certos aspectos, pode ser assim. Mas, infelizmente, este «morder e devorar» existe também hoje na Igreja como expressão duma liberdade mal interpretada. Porventura será motivo de surpresa saber que nós também não somos melhores do que os Gálatas? Que pelo menos estamos ameaçados pelas mesmas tentações? Que temos de aprender sempre de novo o recto uso da liberdade? E que devemos aprender sem cessar a prioridade suprema: o amor? No dia em que falei disto no Seminário Maior, celebrava-se em Roma a festa de Nossa Senhora da Confiança. De facto, Maria ensina-nos a confiança. Conduz-nos ao Filho, de Quem todos nós podemos fiar-nos. Ele guiar-nos-á, mesmo em tempos turbulentos. Deste modo quero agradecer de coração aos numerosos Bispos que, neste período, me deram comoventes provas de confiança e afecto, e sobretudo me asseguraram a sua oração. Este agradecimento vale também para todos os fiéis que, neste tempo, testemunharam a sua inalterável fidelidade para com o Sucessor de São Pedro. O Senhor nos proteja a todos nós e nos conduza pelo caminho da paz. Tais são os votos que espontaneamente me brotam do coração neste início da Quaresma, tempo litúrgico particularmente favorável à purificação interior, que nos convida a todos a olhar com renovada esperança para a meta luminosa da Páscoa.
Com uma especial Bênção Apostólica, me confirmo
Vosso no Senhor
BENEDICTUS PP. XVI
Vaticano, 10 de Março de 2009.
11quarta-feira,
Carta de Bento XVI aos bispos sobre "caso Willianson"
10terça-feira,
"Foi excomungado, e daí?"
Aqui vai um depoimento que talvez nunca será publicado pela imprensa. Ainda bem que existe a blogosfera!
7sábado,
Cardeal Martini na mira da FSSPX
6sexta-feira,
La Stampa e La Repubblica dá notícia sobre excomunhões no Brasil
5quinta-feira,
Blog A cinza do purgatório
Blair: contra o "laicismo agressivo"
Pio XII, o nazismo e o comunismo
4quarta-feira,
Mais um
Anuário Pontifício 2009
3terça-feira,
O turbilhão lefebvrista
O levantamento das excomunhões por Bento XVI não resolve o problema. Assim como o levantamento das excomunhões recíprocas entre Roma e Constantinopla por Paulo VI e Atenágoras não fez com que retornasse a unidade entre a Igreja Romana e as Igrejas Ortodoxas orientais. É preciso notar que o levantamento das excomunhões, em ambos os casos, deve ser interpretado como o primeiro passo para que o cisma seja suprimido. Em tempos de ecumenismo, como proposto pelo próprio Vaticano II em seu decreto Unitatis Redintegratio, um ato de concórdia como esse é sempre bem vindo. Entretanto, a mídia em geral espalha a notícia, com seu tom característico de sensacionalismo, como se a FSSPX tivesse já sido novamente inserida no seio da Igreja, o que não procede.
O agravante das incompreensões, de acordo com o vaticanista Sandro Magister, foi a ressonância da entrevista de um dos padres beneficiados pelo levantamento da excomunhão, Richard Willianson. A sua infeliz e alucinante posição negacionista repercutiu muito mal, como não poderia ser diferente. Tal entrevista, exibida pela televisão sueca em primeiro de novembro de 2008 foi difundida exatamente no mesmo dia em que o decreto era assinado pelo papa. Assim, a primeira notícia que circulou por sites e jornais por todo o mundo foi a de que o papa absolvia a excomunhão dos lefebvristas e acolhia na Igreja um bispo negacionista. Levantaram-se vozes de protestos por todo o mundo, inclusive com o Rabinato de Jerusalém cortando relações com o Vaticano. Os protestos só são atenuados em 28 de janeiro quando o papa intervém com dois esclarecimentos em sua audiência geral das quartas-feiras: primeiro, os lefebvristas devem reconhecer a autoridade do papa e do Concílio Vaticano II; segundo, devem reconhecer a verdade histórica da Shoah (massacre perpetrado contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial e que resultou na morte de 6 milhões de pessoas). As perguntas que Magister se coloca e logo lança algumas hipóteses são as seguintes: tudo isso era inevitável, uma vez que o papa havia decidido sobre o levantamento das excomunhões? Ou o desastre foi produzido por erros e omissões daqueles que deveriam colocar em andamento as decisões do papa? Para o vaticanista, os fatos apontam para a segunda hipótese, ou seja, o problema foi a Cúria. O decreto, como se sabe, tem a assinatura do cardeal Giovanni Battista Re, prefeito da Congregação para os Bispos. Porém, Re diz que não sabia da perspectiva negacionista de Willianson. Outro cardeal, responsável pelo diálogo com os lefebvristas e que se ocupa do caso desde 1988 como presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Darío Castrillón Hoyos, também diz que não sabia dessa face do bispo Willianson. Mas isso não era a obrigação dos dois cardeais? Num caso tão delicado como esse, os cardeais responsáveis pelo documento não sabiam de tão grave posicionamento do lefebvrista britânico? Um cardeal que surpreendentemente ficou fora das discussões, segundo Magister, foi Walter Kasper, chefe do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Surpreendente porque o documento de levantamento das excomunhões veio a publico durante a anual semana de oração pela unidade dos cristãos e há poucos dias antes da jornada mundial da memória da Shoah. Mais surpresa: no dia 17 de janeiro sucedeu-se a jornada para o diálogo entre católicos e judeus. Descompasso completo. Tudo teria se dado mais tranquilamente se tivesse havido um equilíbrio entre os eventos e passos compassados entre os escritórios responsáveis de colocar em andamento as disposições papais. Para Magister, a culpa de tanto desencontro teria sido dos escritórios da Cúria que receberam os comandos. Escritórios que se resumem na Secretaria de Estado, ponta da máquina curial com acesso direto ao papa. Afirma: “Que o papa Ratzinger tinha renunciado a reforma da Cúria todos já sabiam [...] teria desistido da idéia confiando a guia dos escritórios a um secretário de Estado dinâmico e de pulso, Bertone.” Contudo, o que Magister parece sugerir é que Tarcísio Bertone e a Secretaria de Estado foram os responsáveis por tamanho turbilhão. Parece que uma idéia de reforma da Cúria ganha força.
Simpósios sobre ciências das religiões, teologia, filosofia e literatura em BH
no segundo semestre teremos também em BH, o V Simpósio Filosófico-Teológico entre os dias 9 e 11 de setembro de 2009, com o tema "Literatura - provocação para o pensar filosófico e teológico". Mais informações aqui.
2segunda-feira,
"Esse obscuro objeto de desejo": o Vaticano II
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*Não concordo em parte com a afirmativa. Não vejo o societas perfecta imperando assim como quer dizer. A eclesiologia do Vaticano II, uma das maiores preocupações de Paulo VI, tentou um reequilíbrio entre a eclesiologia tridentina e do Vaticano I, marcada pelo dogma da infalibilidade, e aquela assinalada pela colegialidade (notem bem que aqui também há uma questão. O papa, na dita "semana negra" para o episcopado holandês, interviu nos trabalhos e "deu" a receita, a Nota Praevia, de como o texto deveria ser compreendido.
1domingo,
Vaticano II "supervalorizado"
Assim afirma: "É verdade, o Vaticano II trouxe algo novo no que se refere à liberdade religiosa e à exegese bíblica, mas sem nada tirar do primado do bispo de Roma, nem do primado da jurisdição do papa. Para o Colégio episcopal, o concílio realizou viradas de pouca importância, teológico-cosméticas em suma, sem verdadeiros efeitos sobre o direito canônico. Uma enorme propaganda unida a uma colocação em cena espetacular, fizeram aparecer o Vaticano II mais revolucionário de quanto não tenha sido na realidade, e a central romana luta há décadas contra esta percepção, que é antes uma autopersuasão."